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Azteca: O Colosso de Santa Úrsula

Texto por João Pedro Silveira
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A singularidade de um palco

Cada arte tem o seu palco de eleição, a sua «Meca». O Teatro Bolshoi em Moscovo é o palco privilegiado para o Ballet, já as tábuas no palco do La Scala em Milão, são terreno sagrado para os amantes da Ópera. Os amantes do Teatro sempre rumaram ao Old Vic em Londres, enquanto os apaixonados da música sinfónica rumam à Konzerthaus em Viena.

Para ouvir Wagner ruma-se a Bayreuth, para descobrir Mozart é preciso chegar a Salzburgo, para celebrar a música clássica com a «Pompa e Circunstância» que os Proms exigem o palco só pode ser o Royal Albert Hall em Londres, enquanto para as peças de William Shakespeare o destino só pode ser o Globe Theater também na capital inglesa e para os apreciadores do teatro francês todos procuram a Comédie Française em Paris.

O Judo - e os grandes concertos ao vivo - têm lugar marcado no Budokan em Tóquio, enquanto em Los Angeles o Teatro Chinês - e o antigo Teatro Kodac - são sinónimo de Cinema. Em Paris a Chanson Française é rainha no Olympia, já a Soul Music para sempre terá o Apollo Theater em Nova Iorque como a sua casa.

Se o Beisebol tinha no defunto Shea Stadium em Nova Iorque o seu palco mítico, o Hollywood Bowl em Los Angeles era o sonho de todo o grande comediante - e não só. Em Boston há Fenway Park, casa dos red socks, em Nova Iorque o solo sagrado dos desportos - e da música - encontra-se na Quarta Avenida, no icónico Madisson Square Garden. Do outro lado do Atlântico a Formula 1 remete para o Mónaco, enquanto na América a Nascar para Indianapolis.

Em Inglaterra o ténis é em Wimbledon e o críquete no Lord's em Saint John's Wood, também em Londres. Palcos e mais palcos, em todas as latitudes e para todos os gostos, todos igualmente majestosos. 

O futebol também tem os seus palcos de eleição. O Centenário em Montevideu, onde pela primeira vez se jogou uma final de um mundial, o inesquecível - e já desaparecido - Wembley em Londres. Anfield Road em Liverpool, Old Trafford em Manchester - que não é à toa que é conhecido como Teatro dos Sonhos - , o mágico San Siro em Milão, o imenso Nou Camp em Barcelona, o mítico Santiago Bernabéu em Madrid, La Bombonera em Buenos Aires, o mágico Maracanã na Cidade Maravilhosa...

A lista de estádios míticos é imensa, mas nenhum destes estádios - e de todos os outros que não mencionamos - se pode gabar de no seu relvado se ter assistido ao melhor golo e ao melhor jogo de sempre. Nenhum desses estádios teve a honra de receber duas finais de campeonatos do Mundo. Essa lista de honras só cabe ao Estádio Azteca na Cidade do México, talvez o mais icónico de todos os estádios de futebol.

Um sonho de um magnata

Durante a década de 50 o futebol mexicano atingira a sua maioridade. A popularidade do desporto arrastava multidões, enchia estádios e garantias grandes audiências televisivas. 

Emilio Azcárraga Milmo, um magnata da televisão mexicana, percebeu a real dimensão do negócio futebol em terras mexicanas e resolveu planear uma estratégia para o rentabilizar. 

O primeiro passo do seu plano foi comprar a equipa mais importante do México, o América. Depois seguiu-se o plano de construir um estádio grandioso, o maior do México, capaz albergar os grandes jogos que depois podiam ser transmitidos pela televisão para todo o país. 
 
Guillermo Cañedo de la Bárcena convenceu então Azcárraga a construir o estádio, pedindo-lhe que o estádio não fosse só a casa do América, mas a casa do futebol mexicano e que servisse para a organização do Campeonato do Mundo de futebol. O repto foi aceite e a obra nasceu.

A construção

Os arquitetos Pedro Ramírez Vázquez e Rafael Mijares Alcérreca fizeram o projeto. O local escolhido foi a antiga cratera do já extinto vulcão Xitle. Sobre uma superfície rugosa, na Calzada deTlalpan, em Santa Úrsula. O nome escolhido foi Azteca, para homenagear a cultura pré-colombiana no México. Esse nome perduraria até 1997, quando foi substituído pelo nome de Guillermo Cañedo de la Bárcena, mas para os mexicanos o estádio continuava a ser sempre o Azteca e com o tempo as autoridades voltaram a escolher o nome original. 

Em 1961 começaram as obras que duraram cinco anos. Diariamente, quase um milhar de trabalhadores levantaram o estádio. O estaleiro operava 24 horas por dia até estar praticamente terminado em maio de 1966. 

O grande dia chegou a 29 desse mês. O Presidente mexicano Gustavo Díaz Ordaz deu o pontapé de saída, na presença do presidente da FIFA, o inglês Stanley Rous. Mais de 100 mil enchiam as bancadas para presenciar o jogo entre o América e os italianos do Torino. 

O brasileiro Arlindo dos Santos apontou o primeiro golo do estádio aos 10 minutos, colocando a equipa da casa na frente. O jogo acabou empatado a duas bolas. Nos próximos dias sucederam-se diversos jogos em que participaram clubes como o Necaxa, Atlante, e Valencia.

Palco de grandes feitos
 
Em 1968 o estádio recebeu o torneio olímpico de futebol dos jogos que se realizaram na Cidade do México. Dois anos depois foi a vez do Azteca ser o palco do Campeonato do Mundo. 
 
Ao ser palco de uma final de um mundial e de uma final de um torneio olímpico de futebol, o Azteca juntava-se a uma pequena lista de onde faziam parte apenas o Estádio de Colombes em Paris e o de Wembley em Londres. Anos mais tarde outros palcos míticos se juntaram ao rol: o Olímpico de Munique, o Olímpico de Roma, o Rose Bowl de Pasadena em Los Angeles e o Estádio Olímpico de Berlim

Nesse mundial de 1970 o relvado do Azteca foi o palco privilegiado da consagração do Brasil que conquistou o tricampeonato, uma equipa que passou à história como a melhor de todos os tempos. 
 
Dias antes, na meia-final, o emocionante Itália x Alemanha (4x3 a.p.) ficou na história com o «Jogo do Século», com cinco golos a serem apontados no prolongamento, coisa nunca antes - nem depois - vista na fase final de um Mundial. Para comemorar o momento, muitos anos mais tarde, colocou-se uma placa que recorda esse jogo e saúda as duas equipas pelo espetáculo. 
 
O golo do século
 
Dezasseis anos depois de Carlos Alberto ter levantado a Jules Rimet, o mundo futebolístico voltava a reunir-se no México para decidir um mundial.
 
Se 1970 fora o ano de Pelé, 1986 seria de Diego Armando Maradona, e o Azteca seria p palco privilegiado da magia do pequeno astro argentino. Tudo começou nos quartos-de-final, quando «o barrilete cósmico» enganou Peter Shilton com «a mão de Deus». Minutos depois, fintou meia Inglaterra e fez o segundo golo, o mais mágico dos golos, o «golo do século» que também ganhou direito a placa comemorativa no Azteca.
 
Nas meias-finais venceu a Bélgica apontando novamente dois golos e na final, quadrado até ao fim, encontrou um espaço e lançou o lance que deu o 3x2 final e a vitória à Alviceleste. No final ergueu a Taça de Campeão do Mundo da FIFA e ganhou um lugar na história. 

Para a história ficou também o estádio que se tornou no primeiro a receber duas finais do Campeonato do Mundo. 
 
A casa do México
 
Depois de já ter sido a casa do Cruz Azul (1971-1996), Necaxa (1966-71 e 1982-2003), Atlante (1966-83, 1996-2000 e 2004-2007) e Atlético Español (1971-1982), hoje El Coloso de Santa Úrsula, nome como é conhecido dada a sua dimensão, é a casa do América e da Seleção Nacional Mexicana.

Ao longo dos anos o Azteca foi sempre o palco de todas as grandes competições futebolísticas que tiveram lugar na capital mexicana, desde a Gold Cup da Concacaf à vitória mexicana na Taça das Confederações em 1999. 
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México
Cidade do México
Lotação99250
Medidas105x68
Inauguração1966