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Villarreal

Texto por Ricardo Lestre
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Corriam os loucos anos 20 quando um grupo de apaixonados pelo desporto – e pelo futebol em particular – decidiu proceder à fundação de um clube. A 10 de março de 1923 nascia, portanto, o Club Deportivo Villarreal, o primeiro vestígio do atual Submarino Amarelo.

A primeira junta diretiva da foi formada a 24 de maio de 1923 e teve como primeiro presidente o farmacêutico José Calduch Almela, ele que atirou a primeira pedra relativa à história do clube. Construiu o Campo de Deportes que mais tarde virou El Madrigal - atualmente é conhecido como Estadio de la Cerámica – e, por via das economias pouco famosas, recorreu ao equipamento mais básico e barato da época. As primeiras cores do Villarreal foram, portanto, o branco e o preto e permaneceram até o ano de 1946, ano em que o clube adotou o amarelo nas camisolas, como atualmente.

©Villareal CF
Foram precisos quatro meses para o clube disputar o primeiro amigável no seu reduto. A 21 de agosto de 1923, o Villarreal defrontou um dos clubes da província, o Red y Star de Castellón, mas só uma década depois integrou os campeonatos regionais.

Na temporada 35/36, surgiu o primeiro grande momento do ainda jovem clube. Depois de se sagrar campeão da Primera Regional, o CD Villarreal disputou o play-off de acesso à Segunda División frente ao Cartagena. No cômputo geral das duas mãos, o resultado foi desfavorável e o sonho acabou por cair. Uma goleada na primeira mão (5x0) deitou tudo a perder, já que o triunfo por 3x1 na segunda revelou-se insuficiente.

Um ano depois, o título da Primera Regional voltou a ser alcançado, mas assim que a Guerra Civil estalou, em 1936, a equipa desapareceu do mapa… literalmente.

A famosa alcunha

A origem da alcunha ‘Submarino Amarelo’ remete à famosa banda britânica Beatles e para a canção ‘Yellow Submarine’ (1966). Na temporada 1967/68, altura em que a equipa procurava ascender à Tercera División, um grupo de adeptos deu início a uma tendência que se manteve em todos os jogos. “Amarillo el Submarino es/amarillo es/amarillo es”, cantavam os aficionados auxiliados por um gira-discos em pleno El Madrigal.

Do peculiar Foghetecaz às origens

A estagnação do futebol nos escalões mais baixos fez-se sentir no imediato e o desaparecimento do CD Villarreal deixou a cidade órfã de um representante. No entanto, em 1942, a paixão pelo desporto de um novo grupo de jovens deu azo à criação do Club Atlético dos Foghetecaz. O nome, peculiar, estava estritamente relacionado com as iniciais dos fundadores: FO (Font), G (Gil), HE (Herrero), TE (Teuler), CA (Catalá) e Z (Zaragoza).

©Villarreal CF
Quatro anos mais tarde, a decisão do mesmo grupo de amigos tomada em assembleia foi a de recuperar o símbolo anterior e dar início à era do CAF Villarreal. Federada, a equipa ingressou na categoria mais baixa do campeonato regional e, quatro anos depois (1954), proclamou-se campeã do Regional de Aficionados, tendo por isso ascendido à Primera Regional. A evolução, nesse ano, levou a um marco histórico. Nascia, portanto, o Villarreal Club de Fútbol…

Em 1955/56, já transfigurado, o clube subiu pela primeira vez à já criada Tercera División e por lá se manteve durante cinco temporadas consecutivas. Depois de um sobe e desce, a turma amarela acabou por assegurar a presença na Segunda Divisón em 1970/71. Depois disso, vários anos de manutenções, descidas e subidas colocaram o Submarino Amarelo de volta ao segundo escalão em 1997/98. E aí a história mudou…

A estreia absoluta, a despromoção e o pronto regresso

O quarto lugar e a consequente vitória na eliminatória diante do SD Compostela (0x0 na primeira, 1x1 na segunda) deram azo à inédita presença do Villarreal no principal escalão do futebol espanhol. Ora, o encontro simbólico teve no lugar no Santiago Bernabéu, frente ao poderoso Real Madrid, e terminou com uma goleada em 4x1. Pese o resultado, o dia ficou cravado na memória do universo amarillo.

©Villarreal CF
Apesar da primeira volta muito bem conseguida ao leme de José Antonio Irulegui – surpreendeu inclusive o Barcelona de Louis Van Gaal em pleno Camp Nou –, e com jogadores em grande plano como Andrés Palop e o romeno Gica Craioveanu, o Villarreal acabou de descer de divisão (18º lugar) devido a uma segunda marcada pela seca de triunfos. No play-off, o Sevilla levou a melhor e carimbou o acesso à Primera División.

A ausência foi curta, na verdade. Uma segunda metade de 1999/2000 fantástica levou a equipa de novo ao topo graças a um apuramento direto que surgiu devido às alterações efetuadas pela entidade reguladora do campeonato. A consolidação chegou, por fim, e as presenças nas competições europeias também. Isto tudo já na presidência de Fernando Roig, o maior responsável pelos tempos dourados do clube.

Várias épocas na metade da tabela levaram a que em 2001/02 o clube disputasse a velhinha Taça Intertoto. A UEFA esteve a um passo – eliminação diante do Málaga -, mas só na seguinte, ao bater o Heereveen, o Villarreal conseguiu a primeira presença.

O mago de Barcelona e a era dourada de Pellegrini

Em 2003/04 houve um aumento de qualidade impressionante. Com Benito Floro no comando chegaram jogadores de estaleca como o El Torero Riquelme proveniente do Barcelona, Marcos Senna, Pep Reina, Santi Cazorla e Rodolfo Arruabarrena e os resultados não tardaram em aparecer. Apesar do oitavo posto na Liga, o conjunto amarelo realizou uma campanha impressionante na Taça UEFA e só caiu nas meias aos pés do vizinho Valência.

Novo ano, nova vida. Entrou Manuel Pellegrini e o Villarreal rebentou pelas costuras. Mas de uma forma muito positiva. Houve um salto qualitativo tão grande que o Submarino Amarelo conseguiu, na primeira época do chileno, uma classificação histórica: terceiro lugar (65 pontos) só atrás de Barcelona e Real Madrid. Um tal de Diego Forlán, uruguaio de cabelos louros que reforçou a equipa no mercado de verão, terminou a temporada como Pichichi (25 golos) e Bota de Ouro ao lado de Thierry Henry. A sua veia goleadora, juntamente com a magia de Riquelme, semeou o pânico nos relvados espanhóis.

O incónico penálti falhado por Riquelme ©Getty /
Seguiu-se, em 2005/06, uma maravilhosa campanha na Liga dos Campeões. Depois de ultrapassado o Everton no play-off, que significou a primeira presença de sempre do clube na fase de grupos, a sequência invicta e surpreendente. SL Benfica, Manchester United, Lille. Nenhum conseguiu vergar o Submarino Amarelo que assumiu o primeiro posto e derrotou, de seguida, Glasgow Rangers e Inter de Milão nas posteriores eliminatórias. A final esteve a um passo apenas, mas, nas meias-finais, o Arsenal levou a melhor. Para a história ficou o mítico penálti falhado por Riquelme nos descontos da partida da segunda mão.

Do quinto posto em 2006/07 – pela primeira vez em oito anos de primeira divisão, o Villarreal venceu o Real Madrid (1x0), para um fantástico segundo lugar no ano seguinte. Sem Forlán, que acabaria por rumar a Madrid para vestir as cores colchoneras e Riquelme – saiu na segunda metade da temporada - mas com um jovem talentoso Giuseppe Rossi que viria a tornar-se no melhor marcador de sempre do clube com 82 golos, e Diego López, o conjunto amarelo assinalou o melhor arranque de sempre na competição e terminou a época com 77 pontos, a oito do campeão Real Madrid… e a 10 do Barcelona. Foi arrumado nos 16 avos da Taça UEFA pelo Zenit – posterior vencedor – e na Taça do Rei sucumbiu nos quartos aos pés do Barcelona, naquela que foi a melhor participação de sempre da equipa no torneio.

O fim da magnífica era de Pellegrini deu-se em 2008/09 com uma quinta posição na Liga e uma presença nos quartos de final na prova milionária.  Nas cinco épocas do chileno ao leme, o Villarreal viveu os períodos mais áureos desde sua fundação. E tudo se desmoronou depois disso…

Do céu ao inferno em três anos

Ao levar Pellegrini, o Real Madrid levou a estabilidade e a mentalidade do clube. A política de contratações mudou, o comando técnico passou a ser inundado de incertezas e o Submarino afundou de vez.

Santi Cazorla deixou o Villarreal em 2010/11 com rumo a Londres ©Getty /
Ernesto Valverde, Juan Carlos Garrido, José Francisco Molina e Miguel Ángel Lotina. À exceção do segundo, nenhum conseguiu comandar a embarcação em águas agitadas. Garrido ainda conseguiu um quarto posto e uma semifinal da Liga Europa perdida para o FC Porto de André Villas-Boas, mas o destino estava praticamente traçado.

Vários os fatores ditaram a despromoção do Villarreal doze anos depois, desde a saída de jogadores de calibre, como Santi Cazorla, às constantes lesões que assolaram o plantel. Na mesma época em que disputou a Champions – zero pontos na fase de grupos –, saiu da Taça do Rei eliminado por um conjunto da Segunda División B, o CD Mirandés, e terminou na 18ª posição da Liga. A descida de divisão confirmou-se no último e derradeiro encontro da jornada contra o Atlético de Madrid. O solitário golo de Falcao, assim como triunfo do Rayo Vallecano frente ao Granada, traçou o destino. O Villarreal B, espelho de uma cantera em crescendo, pagou a fava e viu-se obrigado a descer um degrau. 2011/12, foi, portanto, a maior mancha na enciclopédia amarela.

O ressurgimento imediato, o alto nível e uma recaída inesperada

A ausência foi curta, na verdade. Na temporada seguinte, e depois de um arranque pouco positivo de Julio Velázquez, o Villarreal sagrou-se vice-campeão do escalão secundário. Foi já com Marcelino García Toral no comando e com elementos como Uche, Mellberg, Cavenaghi e Pandiani que a equipa carimbou o regresso à elite do futebol espanhol.

De cara lavada e livre de problemas de ordem financeira, o Villarreal reergueu-se e voltou, inclusive, aos palcos internacionais.

Cédric Bakambu destacou-se com a camisola amarela ©Matej Divizna / Getty Images
Em 2014/15, com García Toral, foi alcançada a sexta posição no campeonato, os oitavos da Liga Europa – Sevilha que viria a vencer a prova levou a melhor – e as meias da Taça do Rei. A aposta na formação e as contratações cirúrgicas no mercado fizeram com que, no ano seguinte, o rendimento fosse muito satisfatório: quarto lugar na antiga Liga BBVA e um trajeto muito bem conseguido na Liga Europa – sucumbiu nas meias com o Liverpool.

Mesmo após a saída conturbada de Marcelino um pouco mais tarde, Fran Escribá deu conta do recado, mas o mau arranque de 2017/18 colocou Javi Calleja, antigo jogador do clube, no cargo. O alto nível demonstrado após o regresso à La Liga colheu os seus frutos, uma vez que elementos como Eric Bailly, Cédric Bakambu, Samu Castillejo, Denis Suárez, Mateo Musacchio, entre outros, apresentaram rendimentos interessantíssimos e despertaram a cobiça de emblemas de topo.

Quanto nada o faria prever, o Villarreal entrou com o pé esquerdo em 2018/19. Javi Calleja começou mal e acabou despedido; Luís Garcia, apresentado como substituto, durou apenas alguns jogos e a solução da direção foi a de recuperar o técnico demitido numa fase inicial. No meio de um rebuliço enorme, o Submarino alcançou um feito negativo: o penúltimo lugar e os consequentes 17 pontos significaram a pior primeira volta da história, sendo que nem em 2011/12 o registo havia sido tão mau.

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