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história
Cultura do Futebol

Nessun Dorma

2015/10/13 15:40
Texto por João Pedro Silveira
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O Campeonato do Mundo de futebol em Itália aproximava-se. Na Broadcasting House em Londres, os executivos da BBC procuravam uma música para ser o "hino" das transmissões da estação pública inglesa durante a competição.

Procurava-se uma canção "catchy", que ao mesmo tempo que caía no ouvido dos ingleses, representasse também a Itália e que pudesse ainda tornar-se num hino ao futebol.

Toto Cutugno, Rafaella Carrà, Gigliola Cinquetti, eram os nomes que pareciam reunir mais consenso entre os executivos da BBC. Estrelas da pop italiana, nomes reconhecidos pelas presenças em shows televisivos ou pelo sempre mediático Festival da Eurovisão.

Desmond Lyman, a estrela do jornalismo desportivo da BBC queria Luciano Pavarotti. Na sua opinião «Sole Mio» ou outra das grandes canções napolitanas representavam genuinamente o espírito do Bel Paese.

O nome do tenor de Módena caiu bem nos corredores da estação e numa das curvas do destino, a sua magnífica interpretação da ária "Nessun Dorma" da ópera «Turandot» de Giacomo Puccini, acompanhado pela London Philarmonic Orchestra em 1985, tornou-se na música oficial do mundial de 1990 na BBC.

Da China para Itália

Passada em Pequim, no coração da China Imperial, «Turandot» (1762) é uma commedia dell'arte da autoria do dramaturgo italiano Carlo Gozzi que supostamente é baseada num conto persa. A peça estreou-se no Teatro San Samuele, em Veneza, a 22 de Janeiro de 1762. A peça narra a história do Príncipe Calaf e da Princesa Turandot, filha do Grande Cã Altoum. 

©Getty / David Cannon
O sucesso da peça levou a que fossem produzidas as mais variadas traduções, versões e adaptações da obra, por nomes tão renomados do cânone ocidental como Goethe, Carl Maria von Weber, Friederich Schiller, Max Reinhardt, Giacomo Puccini ou Berthold Brecht. 
 
Mas de todas as adaptações, seria a ópera inacabada que o grande compositor natural de Lucca criou entre 1921 e 1924, que se tornou sinónimo de «Turandot». Puccini faleceu antes de terminar a obra e as duas últimas cenas seriam escritas por Franco Alfano, a partir dos rascunhos de Puccini.
 
Para recriar o tema oriental da peça de Gozzi, Puccini usou a escala pentatônica - muito utilizada na música chinesa - e criou algumas das mais belas árias da sua obra, destacando-se obviamente a maravilhosa "Nessun Dorma".
 
A escolha

Ainda hoje em dia se discute quem descobriu a ária de Puccini. Candidatos há muitos e cada um deles aponta mais dois ou três prováveis responsáveis pela descoberta da gravação de Pavarotti. 

Além de Desmond Lyman, também Gerald Sinstadt e Brian Barwick, entre outros, fazem parte da lista dos "culpados" pela escolha da famosa ária para o programa da BBC sobre o mundial.
 
O que poucos podiam imaginar era a ligação que a música teria com o próprio desporto, ao ponto de vir a ser cantada pelos três tenores no grande concerto da FIFA de encerramento do Campeonato do Mundo na véspera da grande final de Roma.
 
Mas como tantas grandes ideias, a escolha de "Nessun Dorma" não terá sido mais que um acidente... O jovem produtor Phil Bernie tinha ouvido a interpretação de Pavarotti e apaixonara-se pela mesma enquanto preparava um pequeno documentário sobre a história dos mundiais. 
 
O tom de lamento de Calaf que aguarda o seu destino tocou profundamente Bernie, que "casou" o refrão com a celebração de Marco Tardelli, no segundo golo da Itália contra a Alemanha Federal na final de 1982.
 
A letra encaixava perfeitamente no momento, enquanto Tardelli corre vitorioso, na mais icónica das celebrações de um golo, o dramatismo da situação ecoava na voz triunfante de Pavarotti: Vincerò, vincerò, vincerò! [Eu vencerei, vencerei, vencerei!].
 
 
A associação entre o futebol e a ária cativou os executivos, era o casamento perfeito. A BBC lançou a campanha e o país apaixonou-se por "Nessun Dorma". Os discos de Pavarotti, Puccini ou da «Turandot» voaram das prateleiras das discotecas inglesas.

"Nessun Dorma" escalava os tops, ficando à frente da música oficial do torneio «Une Estate Italiana» e só sendo superada por "World in Motion" dos New Order, a canção oficial da seleção dos «três leões», que até hoje ainda é considerada no Reino Unido como a melhor música da história do futebol.
 
A mais improvável das associações triunfava: Ópera e futebol. O sucesso do mundial surpreendia todos, pois em 1990 o beautiful game estava longe de ser consensual em Inglaterra, e a cultura que lhe estava associada vivia acossada pelo governo conservador de Margaret Tatcher. As tragédias do Heysel e Hillsborough, a praga do hooliganismo tinham transformado o futebol num desporto pária em terras de Sua Majestade. Mas a nova associação da maior prova desportiva do Mundo à obra de Puccini parecia dar uma nova roupagem ao futebol. De repente o futebol não era só violência e raiva.
 
À medida que a prova avançava tornou-se claro que a BBC tinha um fenómeno entre mãos. Para ajudar à festa a Inglaterra progredia no torneio com sucesso, chegando às meias-finais, feito que não acontecia desde 1966, precisamente no ano em que fora campeã do Mundo.




Três semanas depois de ter começado a "festa", Pavarotti era uma estrela firmada em Inglaterra. A produção da BBC cruzara fronteiras e era apresentada nas diversas televisões europeias, de Portugal à Alemanha.
 
O «Vincerò!» vencera, mas a Inglaterra não. A maldição dos «onze metros» custou a eliminação inglesa às mãos da Alemanha. Gary Lineker queixava-se que os alemães venciam sempre, mas o que corria mundo eram as lágrimas de Paul Gascoigne, Gazza, como afetuosamente era conhecido na Velha Albion
 
Em slow motion, a BBC apresentava as lágrimas de Gazza no seu vídeo final do mundial. O país inteiro chorava com o craque e arrepiava-se ao som de "Nessun Dorma".
 
A Inglaterra estava fora, mas os ingleses não se fartavam da interpretação de Luciano Pavarotti. O tenor percebeu que os ingleses não queriam a Turandot, mas só queriam "Nessun Dorma", de preferência misturada com outras interpretações de árias e canções famosas. Percorreu a Inglaterra e a Europa, depois o resto do mundo, juntando forças com Placido Domingo e José Carreras, «os Três Tenores». "Nessun Dorma" era sempre o momento alto do espetáculo.
 
Na memória ficavam a dança de Roger Milla depois de marcar à Colômbia, a fantástica história de Totò Schillaci, a vitória argentina em Nápoles ou as lágrimas de Maradona na final de Roma. O Itália 90 pode não ter sido o melhor mundial de sempre, mas teve sempre um lugar especial no coração dos adeptos, e a banda sonora teve um papel fundamental nesse sucesso. 
 
Quatro anos depois, no mundial dos Estados Unidos, lá estavam os três a cantar a ária de Puccini, e pelo mundo inteiro a "Nessun Dorma" continuava a ser banda sonora preferida das pequenas peças futebolísticas que as televisões apresentavam sobre o mundial. 
 

 

Nessun Dorma
(Giacomo Puccini)

Nessun dorma! Nessun dorma!
Tu pure, o, Principessa,
nella tua fredda stanza,
guardi le stelle
che tremano d'amore
e di speranza.
Ma il mio mistero è chiuso in me,
il nome mio nessun saprà!
 
No, no, sulla tua bocca lo dirò
quando la luce splenderà!
Ed il mio bacio scioglierà il silenzio
che ti fa mia!
(Il nome suo nessun saprà!...
e noi dovrem, ahime, morir!)
Dilegua, o notte!
Tramontate, stelle!
Tramontate, stelle!
All'alba vincerò!
vincerò, vincerò!
Nessun dorma! Nessun dorma!
Tu pure, o, Principessa,
nella tua fredda stanza,
guardi le stelle
che tremano d'amore
e di speranza.
Ma il mio mistero è chiuso in me,
il nome mio nessun saprà!
 
No, no, sulla tua bocca lo dirò
quando la luce splenderà!
Ed il mio bacio scioglierà il silenzio
che ti fa mia!
(Il nome suo nessun saprà!...
e noi dovrem, ahime, morir!)
Dilegua, o notte!
Tramontate, stelle!
Tramontate, stelle!
All'alba vincerò!
vincerò, vincerò!
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