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Garrincha: a Alegria do Povo

2012/05/25 18:21
Texto por João Pedro Silveira
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Nasceu Manuel Francisco dos , a 28 de outubro de 1931, mas toda a gente o conheceu e conhece por Mané Garrincha, por em pequeno passar muito tempo a tentar caçar pássaros.

O melhor jogador da história do Botafogo, talvez o mais talentoso da sua geração, foi o único que das equipas de 1958 e 1962, não viveu à sombra de Pelé e foi ganhando o seu espaço no imaginário dos fãs do futebol mundial em todos os continentes. 
 
No mundial da Suécia em 1958 fez parte da equipa mítica que conquistou o mundo pela primeira vez. Pelé, apenas com 17 anos, era a figura do torneio, mas Garrincha conquistava também a opinião pública mundial, ao ponto de muitos acharem que era ele o melhor jogador do «escrete».
 
Rei no Chile
 
Na ausência do Rei em grande parte do certame chileno de 1962, motivada por uma arreliadora lesão, Garrincha chamou a si o protagonismo e naturalmente tornou-se a estrela maior do mundial de 62, guiando o Brasil ao bicampeonato.
 
Ao serviço da «canarinha», Mané Garrincha escreveu algumas das mais belas páginas da história do futebol mundial.
De tal maneira eram soberbas as suas exibições, e os seus detalhes de técnica, que a ausência de Pelé não foi sentida. Garrincha apontou quatro golos na competição, tantos como Florian Albert, mas o magiar venceu a Bota de Ouro por ter jogado menos minutos. Na final, contra a Checoslováquia, o Mané ficou em branco, mas já marcara e fora decisivo nos quartos contra a Inglaterra e nas meias contra o Chile.
 
Quatro anos depois, em Inglaterra, um Garrincha já longe do de 1958 e 1962, juntamente com um Pelé novamente fustigado pelas lesões, não conseguiram conquistar o tricampeonato e viram o Brasil cair na primeira fase, à custa de duas derrotas, com a Hungria e Portugal.
 
Anjo das pernas tortas
 
Considerado por muitos como o melhor extremo de todos os tempos, dele dizia-se que conseguiria fintar dois adversários dentro de uma cabine telefónica se assim precisasse, e que saía de lá com a bola controlada em direção ao golo. Verdade ou não, sabe-se que muito da prodigiosa capacidade de fintar com que Garrincha literalmente tirava adversários da frente, advinha da poliomielite, uma enfermidade da infância, que o tinha colocado quase numa cadeira de rodas para o resto da vida, e que lhe deixara marcas.
 
No Maracanã, num jogo contra o Vasco da Gama.
Alguns biógrafos apontam para uma deficiência de nascença, uma lesão congénita nas pernas, mas por outro lado há demasiados testemunhos a corroborar a tese da poliomielite. O resultado é que por um motivo ou por outro, a verdade é que o jovem Garrincha tinha uma perna ligeiramente mais curta e curvada que a outra. Durante muito tempo, tal lesão, impediu-o de andar, obrigando-o a ficar fechado em casa, ouvindo os outros a brincar lá fora, a chutarem a bola do outro lado da janela, a festejarem os golos que ele marcava nos sonhos...
 
Mas uma enorme vontade de viver e a sua vontade férrea, com uma força capaz de mover montanhas, ajudaram-no a superar a doença, fazendo do pequeno Mané aquilo que ninguém acreditava, mas que ele sempre sonhara: ser um dia um grande e reconhecido jogador de futebol.
 
Garrincha viveu rápido e intensamente. Tal como um pássaro, voava pelo campo, imprevisível e livre. Morreria aos 49 anos, pobre, doente e minado por uma vida degradante, resultado da sua dependência do álcool e do jogo. A cirrose hepática acabaria por vitimar precocemente «o Anjo das Pernas Tortas»...
 
Mas para a história ficou o ano de 1962, onde nos campos Chilenos, o Mané, como era conhecido pelos amigos, conquistou com arte e classe uma entrada direta e vitalícia para o Panteão dos deuses do futebol.
 
Herói brasileiro
Com o amigo e colega Pelé, durante um Botafogo x Santos , um confronto entre o campeão carioca e o campeão paulista.
Após o seu falecimento, o grande poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade escreveu:

«Se há um Deus que regula o futebol, esse Deus é sobretudo irónico e farsante, e Garrincha foi um de seus delegados incumbidos de zombar de tudo e de todos, nos estádios. Mas, como é também um Deus cruel, tirou do estonteante Garrincha a faculdade de perceber sua condição de agente divino. Foi um pobre e pequeno mortal que ajudou um país inteiro a sublimar suas tristezas.»

O Brasil inteiro chorou a sua morte e o trágico destino, e na sua campa pode ler-se um sentido epitáfio: «Aqui jaz em paz aquele que foi a Alegria do Povo – Mané Garrincha.» 28 de outubro de 1933 - 20 de janeiro de 1983.

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