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história
Jogadores

Bobby Robson: Sempre Cavalheiro

2013/01/24 13:29
Texto por João Pedro Silveira
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«Gone, but not forgotten» (1), é assim que os ingleses falam daqueles que partiram, mas nunca desapareceram, deixando para sempre uma marca indelével no coração de todos com quem conviveram.

Bobby Robson, é um desses raros homens que o destino levou para longe, mas que nunca foram esquecidos por aqueles com quem conviveram, pelos homens que lideraram, ou como no caso de Robson, que para sempre ficaram na memória dos adeptos que sempre viram nele um exemplo vivo do cavalheirismo britânico e do sportsmanship (2). 

De Sacriston para Londres

Sir Robert William Robson, nasceu a 18 de fevereiro de 1933 em Sacriston, no condado de Durham, no nordeste de Inglaterra, sendo o quarto de cinco filhos de Philip e Lilian Robson (Watt de nascimento). 

A família mudou-se para a vizinha aldeia de Langley Park, onde o pai trabalhava nas minas de carvão. Cresceu entre a mina, a escola e os campos onde jogava à bola.

Pela mão do pai, deslocou-se várias vezes a St. James Park para ver o Newcastle, idolantrando Jackie Milburn e Len Shackleton, os dois médios interiores dos magpies. Curiosamente, seria a interior direito que Robson atuaria a maior parte da sua carreira.

Aos onze passou a jogar regularmente no clube local e aos quinze já jogava com os sub-18. Começou a trabalhar como aprendiz de eletricista na companhia que geria a mina, quando com 17 anos, recebeu uma proposta de contrato para jogar no Fulham. Sem hesitar, e apesar de um convite do vizinho Middlesbrough, fez as malas e mudou-se para Londres

Os anos em Craven Cottage e  de Hawthorns

No Fulham, que um dia considerou «ser um bom clube, um clube sério, mas nunca capaz de lutar pelos títulos», começou na primeira divisão, para sentir a amargura da descida para a segunda, onde se manteve ao longo de quatro intermináveis épocas.

Bobby Robson começou a brilhar em Craven Cottage com a camisola do Fulham.
Trocou Londres por West Bromwich, passando a vestir a camisola do histórico WBA em Março de 1956, a troco de 25 mil libras, um recorde de transferência pago pelo clube das Middlands. 

O Estádio The Hawthorns enchia regularmente para ver os seus golos e em 1957-58 foi mesmo o melhor marcador da equipa. Ao todo apontaria 56 golos pela equipa, nos 239 jogos em que defendeu a camisola do WBA, nas sete épocas no clube...

Com as boas exibições e os golos ao serviço do West Bromwich, não estranhou ser convocado para a seleção inglesa em que se estreou a 27 de novembro de 1957, apontando dois golos na vitória sobre a França em Wembley. Ao todo, jogaria vinte vezes com a camisola dos «três leões», sendo convocado para o mundial de 1958 na Suécia e para o 1962 no Chile, onde por lesão, não jogaria.

Em 1962-63 regressou ao clube de Craven Cottage, que entretanto regressara ao convívio dos grandes. Ficaria mais cinco anos em Londres, antes de ir pendurar as botas no Canadá, ao serviço do Vancouver Royals. 

Carreira no banco: Fulham e Ipswich

Penduradas as chuteiras, tirou um curso de treinador e em 1968 iniciou a sua carreira, precisamente no Fulham. Os londrinos lutavam pela permanência, com somente 16 pontos em 24 jornadas. Robson acabou por não conseguir dar a volta à situação e acabou demitido.

Mais tarde reconheceu que a ida para o Fulham não fora a melhor aposta, lembrando ainda brincar que descobriu que tinha sido demitido ao passar pelas bancas dos jornais à entrada de Putney Station e ler no Evening Standard: «Robson despedido

Seria no Ipswich Town, para onde se mudou em 1969, que Robson começou a construir a aura de grande treinador que o acompanhou ao longo da carreira. As primeiras quatro épocas não foram as mais bem conseguidas, mas a direção manteve confiança no projeto do jovem treinador e os resultados acabaram por chegar.

Em 1972-73, o pequeno clube de Sufolk conseguiu ficar em quarto atrás de Liverpool, Arsenal e Leeds United. Seguiu-se mais um quarto lugar e um terceiro. A época de 1972-73 foi um ponto de viragem, com o clube a conquistar a Taça Texaco (3), e a começar um longo período de bons resultados na liga, ficando apenas uma vez fora dos seis primeiros durante o espaço de nove anos.

Em 1977-78, a equipa acabou por viver com o credo na boca, terminando em 18º lugar, três pontos acima da linha de água, mas tudo seria esquecido com a histórica conquista da Taça de Inglaterra, batendo o Arsenal por 1x0 na grande final de Wembley. Três anos depois chegaria a consagração europeia com a conquista da Taça UEFA, batendo o AZ Alkmaar por 5x4 no conjunto das duas mãos. 

Ao longo dos treze anos do seu consulado em Ipswich, Robson contratou apenas quatorze jogadores, apostando nas escolas do clube, o que lhe permitiu criar uma grande identificação entre os jogadores e o clube. Além da Taça e de uma Taça UEFA, Robson liderou o Ipswich até dois vice-campeonatos, quase imitando o histórico feito de Alf Ramsey, que levara o Ipswich ao título em 1961-62.

Manager da Inglaterra

Tal como Alf Ramsey, acabou por abandonar Ipswich para ir liderar a seleção inglesa que acabara de ser eliminada na segunda fase do Mundial de Espanha. 

Conduziu a Inglaterra às meias-finais do Itália 90. Desde o mundial de 1966 que a Inglaterra não chegava tão longe na competição e fora de casa nunca passara dos quartos de final.
Estaria com a seleção até 1990, cedendo apenas uma derrota nos 28 jogos que disputou em fases de qualificação. Essa derrota com a Dinamarca, custaria a presença no Euro 84 em França e Robson pediu a demissão que não foi aceite pelos dirigentes do FA. 

Em 1986, no Mundial do México, começou com uma derrota com Portugal, seguido de um empate com Marrocos, o que levantou imensas críticas em casa, com a imprensa inglesa a exigir a sua cabeça.

Contudo, a vitória por 3x0 sobre a Polónia abriu o caminho para os oitavos, onde os ingleses deixaram o Paraguai pelo caminho. Nos quartos, a «mão de Deus» e o «golo do século» ajudaram a empurrar a Inglaterra para fora da prova. Robson não ficou impressionado com a exibição de Diego Maradona, atirando um dia mais tarde: «Não foi a mão de Deus. Foi a mão de um patife. Deus não teve nada a ver com isso ... Naquele dia, Maradona perdeu o meu respeito para sempre

Quatro anos mais tarde, Robson liderou a esquadra inglesa no mundial de Itália. Uma primeira fase com uma vitória e dois empates, levou a equipa para os oitavos e para um confronto com a Bélgica, vencido graças ao golo de David Platt.

Em Inglaterra, a campanha inglesa era ensombrada pelo hooliganismo. Agastado, Bobby Robson, resumia todo o sentimento que os amantes do futebol inglês tinham acerca dos hooligans: «Tudo isto só provoca uma sensação de oh meu deus, eles não podem ser dos nossos, pois não?... Eles seguem-nos e nós odiamo-los. Nós simplesmente odiámo-los

Em campo, os ingleses ultrapassavam os Camarões num encontro épico dos quartos-de-final, antes de caírem nas meias-finais contra a Alemanha Federal, vítimas da maldição das grandes penalidades. No jogo atribuição da medalha de bronze, os ingleses voltavam a perder com os anfitriões. Robson despedia-se da seleção depois de chegar à meia-final da competição mais importante do Mundo, tornando-se o primeiro treinador a levar a Inglaterra tão longe, depois de Alf Ramsey em 1966 e único a fazê-lo num torneio realizado no estrangeiro.

Tour da Europa

Saído da seleção, Robson ansiava por um novo projeto em que pudesse trabalhar diariamente. Surgiu uma proposta do PSV Eindhoven, que aceitou prontamente, satisfeito com a ideia de treinar pela primeira vez no estrangeiro. Na Holanda conquistou dois campeonatos, mas alguns problemas com Romário, a incapacidade de falar a língua e os insucessos na Taça dos Campeões, levaram os dirigentes do clube a não quererem renovar o contrato.

Convidado por Sousa Cintra, mudou-se da Holanda para Lisboa, onde treinou o Sporting, o clube de onde foi despedido quando liderava o campeonato.
Foi então que surgiu Portugal na vida de Bobby Robson. O Sporting, presidido por Sousa Cintra foi buscá-lo à Holanda, entregando-lhe uma jovem e promissora equipa que contudo, não parecia ser capaz de disputar o campeonato com os rivais Porto e Benfica.

Em Alvalade teve como tradutor o jovem José Mourinho, que nos anos seguintes viria a tornar-se o seu braço direito. O Sporting ficou pelo terceiro lugar, mas na época seguinte, com Figo, Balakov, Paulo Sousa e companhia, os leões prometiam fazer história. Líderes do campeonato e a jogar bom futebol, os leões foram surpreendidos na Taça UEFA pelo desconhecido Casino de Salzburgo. No regresso a casa, em pleno voo, Sousa Cintra fez um discurso duro em que despediu Bobby Robson, que escutava atónito a tradução de Manuel Fernandes, o adjunto que ia sentado ao seu lado...

Sousa Cintra foi o responsável pelo mais inusitado despedimento da sua carreira (4) e Robson nunca escondeu essa mágoa pelo período que passou em Lisboa. Para o homem, ser despedido quando liderava o campeonato foi um rude golpe. Ser substituído por Carlos Queiroz com tanta rapidez, deixou-o desconfiado. Para Robson, Sousa Cintra tinha um pré-acordo com o português. A postura do herói de Riade e Lisboa, deixou o inglês amargurado, levando-o a tecer comentários menos elegantes sobre Queiroz, o que mais tarde veio a reconhecer como um excesso.

Desiludido, já pensava regressar a Inglaterra e pôr fim às aventuras europeias, quando recebeu um telefonema de Pinto da Costa que o resgatou para o Porto.

Na Invicta, liderou a equipa que ainda foi a tempo de acabar à frente do Sporting na tabela, e ganhar aos leões a final da Taça de Portugal, que foi a primeira vingança do inglês.

No FC Porto com José Mourinho que conhecera nos tempos de Alvalade.
O segundo ano nas Antas, trouxe a Robson a conquista do tão esperado campeonato, após um longo mano-a-mano com os leões, terminado com uma vitória precisamente em Alvalade, a quatro jornadas do fim. O sorriso de Robson não escondia a alegria de ser tão feliz precisamente na casa que o mal tratara. Feliz, ficou no centro do relvado a olhar em redor do estádio, contemplando o cenário da mais pessoal das suas vitórias.

A doença, Barcelona e o regresso 

Tal era o impacto de Robson no Porto, das exibições da equipa e das goleadas constantes por 5x0, que o inglês passou a ser conhecido por «Bobby Five-O» (5).

No verão de 1995, foi-lhe diagnosticado um melanoma, sendo obrigado a afastar-se do comando da equipa por longo tempo, tendo sido substítuido por Inácio no banco. Robson recuperaria totalmente da doença, liderando os dragões à conquista do bicampeonato.

A consagração em Barcelona. Numa super-equipa com Figo, Ronaldo & Cia, Robson conquistou a Taça das Taças, o segundo troféu europeu da sua carreira.
Durante o Euro 1996, recebeu um convite do Barcelona, e após duras negociações com Pinto da Costa, acabou por poder sair para a «Cidade Condal» e para o que considerava ser a «oportunidade de uma vida». 

No Barcelona, seria responsável pela contratação do brasileiro Ronaldo, peça fundamental na conquista da Taça do Rei, Supertaça e Taça dos Vencedores das Taças. 

No final da época, deixou o cargo para o holandês Louis van Gaal, passando a assumir o cargo de manager até ao final do ano.

Abandonaria então Barcelona para voltar a Eindhoven onde não foi muito feliz. Em 1999 passou para o Newcastle, o clube do seu coração, que treinou até ao final da carreira em 2004. 

A partir daí, radicado em Newcastle, ainda foi consultor da seleção irlandesa durante o ano, dedicando o resto do tempo a lutar contra a doença que o teimava em perseguir. Em 2006 foi operado um tumor no cérebro e aproximadamente um ano mais tarde, foi-lhe diagnosticado um cancro pela quinta vez, desta vez nos pulmões. 

Doença que o venceria, após uma tremenda luta que terminou a 31 de julho de 2009. Robson acabou por não resistir após uma luta heroica, debilitado por anos e anos de tratamentos, e constantes regressos da doença.

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(1) - Longe, mas não esquecido
(2) - Desportivismo
(3) - Competição que incluía clubes de Inglaterra, Escócia, Irlanda do Norte e República da Irlanda. 
(4) - Robson fora despedido na sua passagem pelo Fulham, onde começou a carreira como treinador. 
(5) - Bobby Cinco-a-zero.

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