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história
Jogadores

Sócrates: o doutor

2012/01/03 23:01
Texto por João Pedro Silveira
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O panteão do futebol brasileiro tem muitos heróis. Das origens quase lendárias do tempo de Charles Miller, ao mundo globalizado do ano 2000 e de Ronaldo «Fenómeno», tantos grandes jogadores como Pelé, Zico ou Garrincha marcaram a história do pontapé na bola em Terras de Vera Cruz.

E se é verdade que todos são acarinhados e lembrados como heróis eternos, poucos terão um lugar tão unânime no coração dos brasileiros, como aquele jovem alto e esguio que encantava com o seu futebol elegante a torcida brasileira em idos de 70 e meados de 80, com a sua inconfundível barba e fita no cabelo...

Por causa de Platão...

Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, o Doutor, o político, o filósofo, foi tudo isso, mas foi acima de tudo um dos maiores jogadores do futebol brasileiro de todos os tempos.

Nasceu em Belém do Pará no nordeste do Brasil, mas cresceu em Ribeirão Preto, Estado de São Paulo, para onde a sua família se tinha mudado após o seu pai (funcionário público) ter sido transferido. Não há a menor dúvida que o pai influenciou decididamente a vida do jovem. Foi ele o responsável pelo nome do filho, escolhido enquanto lia «A República», a famosa obra do filósofo grego Platão, que narra na primeira pessoa um discurso de Sócrates, o grande filósofo ateniense.
 
Já em Ribeirão Preto, em 1964, assistiria à cena onde o seu pai foi obrigado a queimar todos os livros subversivos que detinha para não caírem nas mãos das autoridades, que no tempo da ditadura procuravam ferozmente qualquer desvio literário à política vigente.
 
Marcado por todas as desventuras e pela educação esclarecida, não admira que herdasse do pai uma intensa paixão pela liberdade que o acompanhou ao longo da vida.
 
Craque e doutor
 
Em 1974 resolve jogar profissionalmente pelo Botafogo de Ribeirão Preto, ao mesmo tempo ingressava na Faculdade de Medicina com a nota mais alta dos candidatos desse ano letivo para iniciar o curso que terminou em 1977 com sucesso, sem nunca deixar de praticar futebol a nível profissional.
 
Em campo os sucessos também se acumulavam, e um magistral golo de calcanhar contra o na Vila Belmiro ficou tão famoso que lhe valeu a alcunha de «Calcanhar de Ouro», para acumular com a de «Magrão» que já detinha por causa da sua elevada estatura.
 
Em 1978 Ruma a São Paulo para defender a camisola do Corinthians, no ano seguinte veste pela primeira vez a «canarinha». Ao lado de Zico, Júnior, Luizinho, Falcão, Toninho Cerezo, Éder e outros, Sócrates brilhou na seleção brasileira, com óbvio destaque para a participação no mundial de Espanha.
 
Um escrete de sonho no verão espanhol...
 
Um ano antes do mundial o «escrete» faz uma tournée pela Europa. Primeiro consegue uma vitória suada em Wembley por 0x1, naquela que foi a primeira derrota inglesa contra uma equipa sul-americana em casa. Depois os magos brasileiros atravessam o Canal da Mancha e levaram de vencida a França com um claro 1x3. Seguiu-se a Alemanha Federal e nova vitória por 1x2. Nascia a lenda da melhor equipa de sempre...
 
No mundial de Espanha o futebol de Sócrates encantou os amantes do futebol.
No verão seguinte em Espanha, durante o mundial, o Brasil praticou um futebol de eleição, ganhou todos os jogos com classe, dando espetáculo, encantando a torcida com vitórias e golos de antologia. Era o futebol arte, jogado ao primeiro toque, por artistas de classe mundial.
 
Mas todos os contos de fadas têm a sua bruxa má. Em 1982 esse papel coube à Itália, que com o seu catenaccio tinha sido o patinho feio da primeira fase e que chegou ao jogo contra o Brasil a temer sofrer uma derrota pesada.
 
O Brasil voltou a fazer um grande jogo, mas Paolo Rossi que até aí não tinha marcado um único golo na competição, estava endiabrado, e com um hattrick venceu quase sozinho o jogo por 3x2, nessa tarde histórica para o futebol, onde debaixo do sol inclemente da Catalunha, que queimava os espetadores que se encontravam nas bancadas do velhinho Sarrià em Barcelona, os sonhos dos brasileiros conquistarem o tetra cairam por terra... Era o fim da equipa que praticava o melhor futebol de sempre exibido por uma equipa não campeã, como escreveram então os analistas.
 
Quatro anos depois, ainda toldado pelo fracasso de 1982, o Brasil de Telé Santana novamente com Sócrates e Zico foi incapaz de vencer a França de Platini.
 
A democracia corinthiana
 
Já antes dos mundiais, a lenda de Sócrates tinha começado em 1981, quando o «Magrão» dá um passo em frente, levando as suas convicções políticas para o futebol, iniciando um movimento que ficaria conhecido como a «democracia corinthiana». 
 
Durante a ditadura militar que "amordaçava" o Brasil, o Corinthians tornou-se o palco de todas as esperanças democráticas brasileiras. 
Jogadores, corpo técnico, diretores, Presidente e até o roupeiro tinham todos direito a um voto dentro do clube. Contratações, dispensas, atos de gestão, tudo passava pelo coletivo.
 
Sócrates teve um papel fulcral durante o movimento que passou à história como a «democracia corinthiana».
A maior torcida do país, os Gaviões da Fiel, levam as palavras de ordem da «democracia corinthiana» pelos campos do Brasil. 
Com o abrandamento da ditadura, a Federação brasileira de futebol (CBF) autorizou o patrocínio nos equipamentos. O Corinthians de Sócrates aproveita e estampa orgulhosamente a palavra Democracia no peito. A palavra viaja pelos relvados do Brasil, levando a nova aos quatro cantos do país.
 
O movimento pedindo eleições e o fim da ditadura alastra. Os militares percebem que é tempo de deixar a História correr o seu fio... 
Em novembro de 1982, o timão entra em campo com “No dia 15, vote" inscrito na camisola, apelando ao voto da população. As eleições decorrem naturalmente e o Brasil caminha a passos largos para a democratização.
 
A «democracia corinthiana» tinha cumprido o seu papel e despediu-se após a conquista do bicampeonato paulista. Nessa noite, Sócrates e os seus colegas entram em campo com uma faixa onde se podia ler: “Ganhar ou perder, mas sempre com democracia.” 
 
O fim da carreira e o final trágico
 
Depois das lutas no Corinthians e da fama que ganhou no mundial de Espanha, chegou a altura de tentar a sorte na Europa, jogando nos italianos da Fiorentina em 1984, contudo sem grande sucesso, regressa ao Brasil no ano seguinte para defender a camisola do Flamengo.
 
Mais tarde jogou no , outro histórico brasileiro, antes de pendurar as botas em 1989. Seguiu-se a carreira de treinador mas sem grande sucesso, voltando entretanto a exercer medicina e a colaborar regularmente nos meios de comunicação social brasileiros.
 
Em agosto de 2011 foi internado após uma hemorragia digestiva alta. Recuperou, e aproveitou a situação para assumir o seu problema de alcoolismo. Em dezembro, após uma suposta intoxicação alimentar, foi internado novamente. Acabaria por soçobrar em decorrência do choque sético que sofreu, falecendo dias depois, a 4 do mesmo mês.
 
Numa daquelas coincidências que só a História tem o direito de reservar, o grande ídolo do Corinthians faleceu no dia em que o seu clube conquistou o pentacampeonato, quebrando o jejum de títulos.
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Socrates
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