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história
Jogadores

Matthias Sindelar: o Homem de Papel

2012/01/23 11:32
Texto por João Pedro Silveira
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O Homem de Papel

Conhecido como o "Mozart do futebol" pela sua genialidade, ou como Der Papierene - “O Homem de papel” - devido à sua estatura física, Matthias Sindelar marcou uma era do futebol europeu.
 
Nasceu a 10 de fevereiro de 1903 com o nome de Matěj Šindelář, em Kozlau na Morávia, atual República Checa, então parte integrante do Império Austro-húngaro, mudou-se com a sua família para Viena em 1905, onde cresceu no bairro Favoriten, local eleito pelos imigrantes checos como residência.
 
Foi nas ruas do bairro da zona sul de Viena que começou a jogar futebol com os seus amigos e vizinhos, pontapeando bolas improvisadas sobre os paralelos que cobriam o chão das ruas desta parte da cidade dos Habsburgos. Apesar de todo o seu talento, aos 14 anos, devido às dificuldades económicas da família, começou por ser um aprendiz de serralheiro.
 
Os primeiros sucessos e a chamada à seleção
 
Só começou a sua carreira de futebolista dois anos mais tarde, quando ingressou nos juvenis do Hertha de Viena onde se manteve até 1926, altura em que mudou para o Wiener Amateur-SV (futuro Austria Viena) onde conquistaria os mais variados triunfos.
 
Foi campeão austríaco em 1926, venceu a Taça da Áustria em 1925, 1926, 1933, 1935 e 1936. Venceu também duas edições da Taça Mitropa (1933 e 1936), a competição de clubes mais importante da época, disputada por diversas equipas do centro da Europa, como que uma precursora das futuras competições europeias.
 
Na seleção austríaca estreou-se em 1926 num jogo contra a Checoslováquia que os austríacos venceram por 1x2 em Praga. Treinada por Hugo Meisl a nacional austríaca começou por vencer os seus vizinhos suíços, checos e húngaros, fazendo crescer a lenda de que era a melhor equipa da Europa continental.
 
Wunderteam
 
A 16 de maio de 1931 a Escócia visitou Viena para comprovar que o futebol britânico ainda estava uns passos à frente do futebol continental, mas quem assistiu a essa tarde de futebol na cidade do Danúbio azul, não esquece a forma como os austríacos liderados por Sindelar, cilindraram os escoceses por 5x0! A Europa pasmou e a Áustria ganhou a alcunha de Wunderteam (equipa maravilha).
 
qos austríacos liderados por Sindelar, cilindraram os escoceses por 5x0! A Europa pasmou e a Áustria ganhou a alcunha de Wunderteam
Seguiram-se um 6x0 e um 5x0 à Alemanha, depois nova vitória sobre a Suíça (8x1) e um inapelável 8x2 à Hungria. Entre 1927 e 1932, o Wunderteam esteve 15 jogos sem perder.
 
A fama dos austríacos atravessou fronteiras e galgou o Canal da Mancha para chegar a Londres, onde os dirigentes da Football Association curiosos com este fenómeno continental, resolveram convidar a seleção austríaca a visitar capital inglesa, com o objetivo não declarado de se saber quem era então a melhor equipa do mundo. Ainda menos declarado seria o objetivo de mostrar a força do futebol inglês, "calando" as vozes continentais que falavam em fim do domínio britânico...
 
Uma tarde em Londres
 
Em Stamford Bridge, Londres, a Inglaterra bateu a Áustria por 4x3, num belo jogo de futebol que encantou os espetadores. Com a vitória, os ingleses podiam continuar a considerar-se os senhores do jogo, enquanto os austríacos provavam que o futebol continental tinha encurtado as distâncias para a Grã-Bretanha.
 
Nesse jogo, Sindelar marcou um golo que encantou todos o que presenciaram essa tarde mágica de Londres em 1932. O próprio árbitro da partida o belga John Langenus diria mais tarde:
 
«O golo de Sindelar foi uma verdadeira obra de arte, um feito que ninguém conseguiria alcançar contra um adversário como os ingleses. Nem antes nem depois dele. Sindelar pegou a bola no meio campo e disparou com a sua incomparável elegância, driblando tudo o que lhe aparecia pela frente, e concluiu empurrando a bola para o fundo da baliza
 
 
 
 
Seriam precisos mais 54 anos, até que um outro grande jogador fintasse meia equipa de Inglaterra e marcasse um golo assim. Noutra tarde mágica, a quase 9.000 quilómetros de Londres, debaixo do sol inclemente da Cidade do México, outro predestinado do futebol, driblou toda a Inglaterra e empurrou a bola para a baliza deserta...
 
Mais tarde, em maio de 1936, a Inglaterra acabaria por ser batida pela Áustria em Viena por duas bolas a uma. Entre 1932 e o mundial de 1934, os austríacos voltaram a ter uma sequência de oito jogos sem perder, o que a somar a ausência dos campeões do mundo uruguaios no grande certame, tornava a equipa de Sindelar uma das, senão mesmo a, grande favorita à vitória final no mundial de Itália.
 
O Mundial de 1934
 
Paul Meissner, «Das Wunderteam», 1948, Wien Museum, Viena ©gettyimages
A verdade é que a Áustria começou mal o torneio com uma vitória sofrida e apenas após prolongamento sobre a França (3x2), seguiu-se outra vitória complicada sobre a Hungria (2x1), antes da Meia-final em Milão contra os anfitriões.
 
Num relvado que mais parecia um "batatal" - graças ao dilúvio da véspera, os austríacos sucumbiram por 1x0 às mãos da equipa da casa, e de uma arbitragem lastimável do sueco Eklind, que não viu uma claríssima grande penalidade de Monti sobre Sindelar, entre outros erros, impedindo os austríacos de chegarem à grande decisão.
 
Após o mundial o futebol austríaco ainda brilhou com uma medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Berlim (1936) onde o Sindelar contudo não participou, no ano seguinte, Hugo Meisl, o líder e mentor do futebol austríaco, faleceu, deixando o Wunderteam órfão de liderança. 
 
Anschluss 
 
qA pedido de Sindelar, os austríacos equiparam de vermelho e branco, as cores da bandeira nacional que acabara de desaparecer, ao invés da habitual camisola branca e calções pretos, também normalmente utilizados pela Alemanha
Em 1938 a Alemanha de Hitler anexou a Áustria ao III Reich. Era o Anschluss (anexação), integração política da Áustria no Império alemão, que reduziu o país à mera condição de província. A seleção austríaca deixou de existir, de facto, mas realizou-se ainda o Anschlussspiel, um jogo entre a Áustria e a Alemanha com o objetivo de celebrar o regresso da Áustria ao Reich. Era a última vez que os jogadores austríacos jogavam pela sua pátria.
 
A pedido de Sindelar, os austríacos equiparam de vermelho e branco, as cores da bandeira nacional que acabara de desaparecer, ao invés da habitual camisola branca e calções pretos, também normalmente utilizados pela Alemanha. O jogo disputou-se no Prater em Viena e as bancadas estavam cheias de políticos do Partido Nazi e oficiais do exército alemão.
 
qA pedido de Sindelar, os austríacos equiparam de vermelho e branco, as cores da bandeira nacional que acabara de desaparecer, ao invés da habitual camisola branca e calções pretos, também normalmente utilizados pela Alemanha
A Áustria passou o jogo todo a perder oportunidades de golo, como que deliberadamente tentando demonstrar a sua superioridade sobre o rival. 
O zero-a-zero manteve-se até aos últimos vinte minutos, quando com muita facilidade os austríacos apontaram dois golos que foram exacerbadamente festejados por Sindelar em frente das altas autoridades nazis.
 
O resultado final foi uma pequena humilhação para os nazis, e Sindelar, ao contrário de muitos colegas, recusou-se a vestir a camisola da Alemanha, apesar das diversas convocatórias do treinador alemão Sepp Herberger.
 
A 26 de dezembro de 1938, vestiu pela última vez a camisola do Áustria Viena, que entretanto fora forçado a mudar de nome para SC Ostmark Viena, dado que Ostmark era o nome oficial da Áustria desde que se tornara uma mera província do Reich.
Der Papierene marcou o último golo da sua brilhante carreira nessa tarde em que o seu Austria empatou 2x2 com o Hertha Berlim. Abandonou o futebol, passando a viver de rendimentos e abriu ainda uma cafetaria.
 
Morte misteriosa
 
Placa evocativa do local onde a 23 de janeiro de 1939 faleceu o "Rei do futebol Vienense"
A 23 de janeiro de 1939, Sindelar e a sua amante italiana Camilla Castagnola foram encontrados mortos no apartamento de ambos em Viena. O relatório policial concluiu que a morte ocorrera devido a uma acidental fuga de gás, enquanto dormiam. Rumores de suicídio ou assassinato correram pela capital austríaca. Ninguém queria acreditar que o seu astro tinha morrido tão jovem, e num acidente estúpido, num descuido injustificável... 
 
A teoria do assassinato ganhou força no pós-guerra, quando abertura dos ficheiros das forças de ocupação nazi, permitiu concluir através da leitura de diversos documentos, que Matthias Sindelar vinha sendo investigado pela Gestapo, e que na sua ficha indicavam-se as suas simpatias sociais-democratas e o facto de ser um pró-judeu. Mas nunca nada ficou provado. Assassinato ou acidente? A dúvida perdura.
 
Cerca de 20.000 pessoas acompanharam o cortejo fúnebre pelas ruas da cidade, e o seu enterro teve honras de estado que em muito perturbaram os nazis. Bandeiras austríacas foram levantadas, o hino foi cantado e o féretro passeou pelas principais artérias vienenses coberto com a bandeira vermelha e branca da República Austríaca.
 
O Homem de Papel, o Mozart do Futebol repousa no Zentralfriedhof, o mesmo cemitério vienense onde repousam Beethoven, Brahams, Schubert ou Johann Strauss...
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