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história
Jogadores

Lily Parr: a pioneira

2014/02/18 15:54
Texto por João Pedro Silveira
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Qual foi o jogador inglês que marcou mais golos ao longo da sua carreira? Quando confrontados com esta questão, muitos pensarão em nomes incontornáveis como Bobby Charlton, recordista de golos ao serviço da seleção inglesa, ou Jimmy Greaves, que só marcou menos um golo que Charlton na seleção, mas que o superou por longa margem ao longo da carreira. Haverá por certo quem fale até de Arthur Rowley, o grande goleador dos anos 50, conhecido como The Gunner - sem nenhuma ligação ao Arsenal - e que apontou 434 golos em 619 jogos.

Mas nenhum deles é o herói da nossa história. Esse lugar está reservado para um avançado que apontou 900 golos, ao longo de uma carreira que durou entre 1919 e 1950, e que só na época de estreia, com somente 14 anos, apontou 43 golos. Quem foi este verdadeiro furacão, o «pontapé mais forte de Inglaterra», segundo os seus pares e a imprensa da época? 

Falamos de Lilian Parr, feminista, pioneira do futebol feminino, uma das melhores jogadoras de futebol de todos os tempos, que pelas vicissitudes da época, sofreu discriminação e nunca pode viver a sua carreira - e a sua vida pessoal - como tanto queria. 

A pequena Lily

Lilian Parr nasceu a 26 de abril de 1905 numa casa modesta, em Union Street, Gerrard's Bridge, em St Helens, no norte de Inglaterra. A pequena Lily era a quarta de sete filhos do casal George e Sarah Parr. 

O seu pai era um vidraceiro numa fábrica da cidade, mas o salário era pequeno e a família necessitada, alugava quartos na casa e nos arrumos que existiam nas traseiras, para assim conseguir ganhar um rendimento extra. 

Desde tenra idade que Lily mostrava um gosto particular pelas brincadeiras dos irmãos, deixando de lado atividades que eram tradicionalmente femininas, como a costura e a cozinha. Ao brincar e jogar regularmente com os irmãos mais velhos, Lily ganhou uma capacidade atlética invulgar que lhe permitia jogar com os rapazes, tanto futebol como râguebi.

Um portento físico

Com aproximadamente 1,80 m, a sua força e técnica era admirada e temida. Dizia-se que era «senhora do pontapé mais forte de Inglaterra», a sua habilidade a chutar o esférico era tal, que se dizia que conseguia chutar à baliza de qualquer parte do campo. Chutava com igual força e precisão, fosse num livre direto, numa jogada de bola corrida ou num pontapé de conversão no râguebi, onde era uma exímia pontapeadora, famosa pelos seus drop goals (1).

Era acima de tudo uma jogadora de equipa, com uma capacidade de passe incomum e uma técnica aprimorada. O seu pé esquerdo fazia estragos no campo e num mundo em que a mulher não tinha voz, nem lugar, a sua força de vontade foi capaz de mover montanhas, ganhando dentro do campo o direito de ser tratada como igual pelos homens, a quem vencia regularmente em velocidade, técnica e força. Além da enorme capacidade goleadora, Lily era a rainha das assistências na sua equipa, à custa dos milimétricos cruzamentos que fazia que a tornaram na winger mais famosa do Reino Unido.

Dick Kerr Ladies

Em 1919, com somente 14 anos, Parr começou a jogar futebol no clube local, o St Helens Ladies. O segundo jogo foi contra o Dick Kerr Ladies, uma espécie de Real Madrid do futebol feminino na época. O St Helens foi esmagado por 6x1, mas Alfred Frankland, o treinador da equipa de Preston ficou de tal maneira impressionado com a exibição de Lily e da colega Alice Woods, que as contratou na hora, convencendo-as a mudarem-se para Preston.
 
O Dick Kerr Ladies era um clube de futebol feminino pertencente à Dick, Kerr and Company, uma empresa de caminhos-de-ferro com fábricas em Preston e Kilmarnock na Escócia, que durante a guerra fora utilizada para fabricar munições e armas. Foi precisamente por causa do conflito, que as mulheres começaram a jogar futebol na fábrica. Dado que a maioria dos homens se encontrava nas trincheiras da Bélgica e norte de França a combater os alemães, as mulheres foram chamadas a ajudar no esforço de guerra, tomando o seu lugar nas fábricas inglesas. 
 
Na Dick, Kerr and Company, as mulheres começaram a jogar futebol nos tempos livres e os dirigentes da empresa, resolveram capitalizar a ideia, formando um clube (1914) que patrocinaram durante décadas.
 
Uma longa carreira
 
Frankland aceitou pagar 10 xelins a Parr sempre que esta efetuasse uma partida pela equipa. E na primeira época teve logo que abrir os cordões à bolsa, pois Parr pegou de estaca, tornando-se titular e apontando 43 golos ao longo da época, um recorde que ainda hoje perdura.
 
Em 1920, um jornal local escrevia assim sobre a talentosa rapariga: «Não haverá por certo nenhum prodígio futebolístico maior em todo o país. Não só tem velocidade e um controlo de bola excelente, mas o seu físico admirável permite-lhe fugir das entradas mais duras dos adversários. Ela deslumbra as multidões em todos os locais onde joga pela forma como leva a bola de um lado ao outro do campo.»
 
Ainda em 1920, o Dick Kerrs Ladies representou a Inglaterra numa série de jogos contra uma equipa francesa, no que se tornou no primeiro encontro internacional de futebol feminino. Até 1921, o clube defrontou também uma equipa escocesa e fez uma tour por terras gaulesas. De Deepdale em Preston a Stamford Bridge em Londres, multidões enchiam os estádios para acompanharem cada novo jogo de Parr e das suas companheiras. 
 
O fim do sonho
 
Com estádios cheios para assistirem aos jogos das meninas do Dick Kerrs, a fama do futebol feminino começou a ensombrar o futebol masculino, o que levou a Football Association (2) a proibir a realização de jogos de futebol feminino em estádios que fossem pertença dos seus membros, sob ameaça de expulsão desses mesmos clubes. 
 
De um momento para o outro as portas fechavam-se para Lily e companhia. O futebol feminino inglês entrou num acentuado declínio. Para contornar a situação, os dirigentes do Dick Kerrs Ladies levaram as meninas numa longa tournée pela América do Norte em 1922. 
 
Depois de serem banidas ao chegar ao Canadá e impedidas de jogar, passaram aos Estados Unidos onde em nove jogos, conseguiram três vitórias, três empates e três derrotas com as melhores equipas masculinas do país.
 
No regresso à Grã-Bretanha, as jogadoras continuaram a sentir a descriminação, vendo-se obrigada a jogar em pequenos estádios e às vezes em campos sem condições. Sem público deixou de haver dinheiro e publicidade. Em 1926, a Dick, Kerr´s and Company retirou o apoio à equipa, que passou então a chamar-se de Preston Ladies FC. 
 
Um símbolo
 
Quando abandonou a Dick, Keer and Company, Parr estudou enfermagem, passando a trabalhar num hospital psiquiátrico em Whittingham até se aposentar. Enquanto trabalhava no hospital, continuou a jogar no Preston Ladies até 1951.
 
Parr viveu grande parte da sua vida em Goosnargh, perto de Preston, com a sua companheira Mary, assumindo publicamente a sua homossexualidade, mesmo sofrendo todo o tipo de descriminação, ganhando assim a aura de lenda do movimento pelos direitos LGBT. Após de anos de luta contra a doença, acabaria por falecer de cancro da mama em 1978, contava 73 anos.
 
Seria somente em 1971 que a Football Association voltaria a reconhecer o futebol feminino, revogando a proíbição que durara cinquenta anos. Em 2002, quase cem anos depois do seu nascimento, Parr viu o seu nome ser introduzido no Hall of Fame do futebol inglês, pelos seus serviços prestados para o desenvolvimento do jogo.
 
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(1) Drop Goal - Pontapé de ressalto. É um tipo de remate efetuado no râguebi. Durante a partida, um jogador pode desferir um remate tentando fazer a bola passar por cima da trave e entre os postes do adversário, conquistando desta forma três pontos. Para o drop goal ser válido, o jogador deve fazer a bola tocar no chão e fazer um remate imediato.
(2) Federação Inglesa de Futebol.
As a girl Parr displayed little enthusiasm for traditional pursuits such as sewing and cookery. Instead her fearless streak and robust frame allowed her to compete alongside boys in both football and rugby. Under the tutelage of her elder brothers she became proficient in both sports.[3]
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