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História

Maggie e o futebol, um desamor correspondido

2013/04/24 16:59
Texto por João Pedro Silveira
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As recentes exéquias de Margaret Thatcher culminaram uma longa semana de acesa polémica em volta do papel da ex-Primeira Ministra do Reino Unido na história recente do país. As suas políticas, as suas visões para a sociedade e o futuro do país, dividiram e ainda dividem os súbditos de Sua Majestade, muitos anos passados desde o dia em que a «Dama de Ferro» abandonou o número «dez» de Downing Street.

Muito se escreveu e debateu nestes dias que foram passando, lembrando o papel decisivo que a Baronesa Thatcher teve na construção da Inglaterra dos nossos dias. Contudo, poucos centraram a sua opinião numa área, onde a «mão pesada» e o dedo legislativo da «Dama de Ferro» criaram escola: o futebol.

Será impensável imaginar a Premier League dos nossos dias sem o consulado da «Dama de Ferro». Quem olha para o futebol inglês da segunda metade da década de oitenta com os estádios sem condições, muitas das vezes vazios, e olha para os estádios cinco estrelas dos nossos dias, sempre lotados, dificilmente consegue acreditar que se trata do mesmo campeonato. 
 
Mas contudo, no fim de semana que se seguiu à sua morte, o futebol não parou um segundo que fosse para lembrar a sua morte, nem praticou o habitual minuto de silêncio em sua honra. Dizer-se que Thatcher não ligava nada ao futebol e que o futebol também não ia com a cara da dela, não será uma grande novidade para o leitor. Mas talvez haja mais por detrás desta relação que mudou o beautiful game. Com isso em mente, e sem mais demoras, eis a crónica desse desamor correspondido...
 
Uma nova Inglaterra
 
Maggie tinha um sonho para Inglaterra. Um país moderno e  próspero, uma sociedade esclarecida e uma economia livre do que ela considerava como as «amarras do socialismo», uma herança dos governos trabalhistas do pós-guerra que conduziram o Reino Unido para duas crises económicas em menos de dez anos.
 
Nesse seu sonho, nesse novo Reino Unido, os movimentos de contracultura não tinham lugar na sua sociedade imaginada. Thatcher sabia ao que vinha e nunca o escondeu de ninguém e foi assim que sempre ganhou com maioria absoluta, todas as eleições legislativas em que participou.
 
Thatcher não só não tinha contemplação, como desprezava aqueles que apelidara de wrongdoers, como os punks e os skinheads, a alma e o coração do hooliganismo que grassava no futebol inglês no fim da década de setenta, como também nos primeiros anos da década de oitenta.
 
A pérfida Albion
 
Os movimentos de contracultura elegeram Thatcher como o inimigo número um, o alvo a abater. A cultura inglesa era um dos campos de resistência ao que eles consideravam ser uma Perfid Albion em construção, a nova Inglaterra sonhada por Maggie. Na música em particular, muitos levantaram a voz contra Thatcher, desde os The Clash aos The Smiths, com estes últimos a criarem até um hino para o doce e meigo hooligan [Sweet and Tender Hooligan]. Anos mais tarde, Morrissey, o vocalista dos The Smiths cantaria um elucidativo Margaret on the Guillotine...
 
O movimento hooligan era louvado em canções e muitos jovens aderiam às claques, tendo a «Laranja Mecânica» de Anthony Burgess como uma Bíblia dos tempos apocalípticos que eles acreditavam adivinhar-se, cantavam «No future, No future for you!», o mote que os Sex Pistols haviam legado à juventude.
 
A contestação crescera a grande velocidade na década de setenta, com os protestos a fazerem-se diariamente ouvir na rua contra os governos trabalhistas de Harold Wilson e James Callaghan. Numa sociedade à beira da rutura, o hooliganismo era mais um lado dessa contestação que a sociedade inglesa conhecia. As claques e grupos de adeptos eram os microcosmos que uniam numa frente comum, gente com motivações tão díspares como o anarquismo, o racismo ou o puro banditismo.
 
O movimento ganhara proporções descontroladas, com batalhas campais a terem lugar semana após semana em zonas envolventes dos estádios, estações de comboios, descampados nos subúrbios. Toda a Inglaterra parecia estar em estado de guerra, os hooligans pareciam crescer em número, a cada dia que passava, para desespero das autoridades.
 
Num ápice, o hooliganismo ameaçava ser capaz de tomar conta dos campos ingleses, espalhando-se como uma doença contagiosa de norte a sul, acompanhando também as deslocações dos clubes ingleses nas competições europeias.
 
A «doença inglesa»
 
Pioneiros do futebol, os ingleses introduziram também o hooliganismo nas grandes competições de seleções no europeu disputado em solo italiano. O jogo contra a Bélgica, virou uma página na relação da seleção inglesa com os seus adeptos. O ano era 1980 e a Europa conhecia o lado negro do futebol Made in England.
 
A imprensa inglesa não teve piedade para tão triste espetáculo. Palavras como "opróbrio", "ignomínia" e "infâmia" faziam as parangonas, enquanto os críticos qualificavam os adeptos como "escória da raça humana". A «doença inglesa», «la maladie anglaise» (1) no original em francês, como os continentais apelidaram o hooliganismo, atingiria o pico em 1990 durante o mundial, também ele disputado em Itália.
 
Seria Bobby Robson, o selecionador inglês durante o mundial italiano, a resumir todo o sentimento que os amantes do futebol inglês tinham acerca dos hooligans: "Tudo isto só provoca uma sensação de 'oh meu deus, eles não podem ser dos nossos, pois não?'... Eles seguem-nos e nós odiamo-los. Nós simplesmente odiámo-los."
 
Thatcher abominava estes comportamentos e «esta gente». Desde meados dos anos oitenta que avançara com medidas para a erradicação do problema. Estava convencida de que não bastava punir, era preciso ir mais longe, como de facto foi, após a final do Heysel, defendendo prontamente a exclusão dos clubes ingleses das competições europeias, ameaçando até excluir a própria seleção das competições internacionais.
 
Três anos mais tarde, continuava decidida, defendendo que "Nós temos mesmo de erradicar esta mancha da nossa reputação". Todavia, não tinha sido sempre assim...
 
O fim de uma era
 
Menos de um mês depois de Maggie ter sido eleita, a 4 de Maio de 1979, o Nottingham Forest batera o Malmö, conquistando a primeira das duas Taças dos Campeões Europeus do seu historial. Esta era a terceira de seis época consecutivas entre 1976-77 e 1981-82, que um clube inglês era coroado Campeão da Europa. Antes, o Liverpool conquistara a prova duas vezes consecutivas, tal como o Forest de Brian Clough faria o mesmo, antes dos reds e do Aston Villa conquistarem a «orelhuda» em Paris e Roterdão. 
 
Eram seis anos de domínio absoluto inglês, interrompido apenas em 1983, quando Aston Villa e Liverpool não conseguiram chegar à final, que foi decidida entre os alemães do Hamburgo e os italianos da Juventus. Um ano depois, o Liverpool voltou a erguer o troféu em Roma. Naquela que  poucos podiam imaginar que seria a última vitória inglesa até 1999...
 
Na época seguinte, o Liverpool voltou a chegar ao jogo decisivo, disputado em Bruxelas, Bélgica, naquela que passou à história como a mais triste de todas as finais, a final do Heysel, manchada pelo sangue dos adeptos italianos da Juventus, vítimas do selvático ataque dos hooligans afectos ao Liverpool. Para profundo pesar de muitos, a final não foi interrompida e a Juventus ergueu a taça no final, numa das mais tétricas comemorações de vitória de sempre. 
 
Heysel: o ponto e viragem
 
A tragédia de Heysel acabou por ser a oportunidade que a «Dama de Ferro» há muito esperava para dar a machadada final no hooliganismo inglês. Thatcher aproveitou o momento e de forma implacável cortou a raíz do problema, forçando a exclusão das equipas inglesas das competições europeias, antecipando-se inclusive à decisão do organismo que regia o futebol do continente, a UEFA.
 
Com a opinião pública inglesa chocada com o sucedido na capital belga, Thatcher endureceu o discurso e tomou medidas que transformaram para sempre o cenário desportivo no Reino Unido. Os adeptos de futebol foram encarados como uma ameaça, ao nível dos mineiros e dos sindicatos que há muito eram os principais opositores do governo conservador liderado por Thatcher.
 
A 13 de março, os incidentes entre os adeptos do Milwall e do Luton, num jogo da 6ª ronda da FA Cup, já tinham levado Maggie a criar um «War Cabinet» para combater o hooliganismo.
Também umas semanas antes da tragédia do Heysel, os diversos acontecimentos em Inglaterra, obrigavam o governo a formar uma comissão para analisar a situação. As conclusões do Popplewells's Committee, o estudo encomendado pelo governo, afirmavam peremptoriamente que se o problema do hooliganismo não fosse encarado de frente, "o futebol não poderá continuar a ser como o conhecemos hoje em dia por muito mais tempo".

A proposta para se criarem cartões de adeptos, com objetivo de fechar as portas aos adeptos visitantes, foi colocada em cima da mesa. 

A comissão Popplewell tinha sido criada para investigar dois incidentes que ocorreram em campos ingleses a 11 de maio de 1985. Um incêndio em Bradford que vitimou 56 pessoas e um motim que deflagrou durante o Birmingham City x Leeds United, onde um rapaz de 15 anos perdeu a vida, que Popplewll considerou que era mais "uma batalha de Agincourt que um jogo de futebol".

A tragédia de Hillsborough

A 15 de abril de 1989, os incidentes ocorridos no Estádio de Hillsborough em Sheffield, provocaram 96 mortes. O país, novamente em estado de choque, pedia medidas e exigia que fossem encontrados os culpados. A «Dama de Ferro» acompanhou todo o processo de perto. Lord Taylor of Gosforth, foi encarregado de encabeçar a investigação ao sucedido nessa tarde em Sheffield.

Thatcher apelou para penas duras para os infratores, Colin Moynihan, o seu Ministro do Desporto, tentou introduzir o Cartão de Identificação proposto pela anterior comissão Popplewell, como uma das medidas previstas no Football Spectators Act 1989. Todavia, o Relatório Taylor indicava que a violência e o hooliganismo não tiveram nenhum papel no sucedido em Hillsborough, culpando as autoridades pelo sucedido e acusando o comportamento da polícia como o principal responsável pelo sucedido.

A «Dama de Ferro» não gostou das conclusões e adiou a apresentação pública do relatório que culpava a polícia pelo desastre. Era preciso impedir que as mesmas viessem a público. 

As consequências do Relatório Taylor

Bem antes do relatório chegar ao número dez de Downing Street, a comunicação social começava uma campanha que imputava a culpa da tragédia nos próprios adeptos. Munidos com os relatórios «oficiais» que as autoridades e as forças de segurança do Yorkshire tinham cedido aos meios de comunicação social, os jornais estavam dispostos a fazer sangue.

O comportamento das forças de segurança era louvado, chegando a indicar-se que tinham sido os principais responsáveis por evitar números ainda piores, quando na realidade, o relatório Taylor apontara o dedo à sua atitude, apresentando-lhe diversas falhas.

O The Sun apresentava «A verdade», chamando à primeira página acusações como «alguns fãs roubaram carteiras das vítimas», «alguns fãs urinaram nos bravos polícias» e «alguns fãs agrediram guardas».

As vítimas - e os que tinham estado ao seu lado na bancada - eram apresentados como «animais». Os adeptos e dirigentes do Liverpool ficaram indignados e o The Sun era boicotado - como ainda é nos nossos dias - em toda a região de Mersey. 

Durante mais de 20 anos, as 96 vítimas de Hillsborough foram injustamente apresentadas como culpadas, com os seus familiares e amigos a exigirem um pedido de desculpas que só chegou em 2012: o primeiro-ministro David Cameron, o chefe de polícia de South Yorkshire, David Crompton; o Presidente da Football Association, David Bernstein e Kelvin MacKenzie, o então editor do The Sun, pediram desculpas às vitimas, aos seus familiares e amigos, assim como ao Liverpool, em nome das diversas organizações a que pertenciam. Margaret Thatcher manteve um silêncio ensurcedor que foi severamente críticado em Liverpool.

Não surpreende que em Anfield a sua morte não tivesse sido esquecida e que de entre as dezenas de cartazes com palavras menos simpáticas para a «Dama de Ferro», se pudesse ler, “You didn’t care when you lied, we don’t care that you died" (2).
 
Talvez o epicentro das manifestações de não pesar tenha sido Liverpool, mas a verdade é que a sua morte gerou uma onda de indiferença que se alastrou de norte a sul de Inglaterra, com adeptos de todos os clubes a mostrarem as suas razões para não gostarem de Maggie. 
 
É verdade que se revolucionou o futebol inglês, mas sem com isso castigar os clubes, deixando sobre . Sam Allardyce escreveu em 2011 no mesmo The Sun que tomara o lado de Maggie em 1989: "Thatcher matou o nosso futebol, não há nenhuma dúvida sobre isso".
 
 
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(1) La Maladie Anglaise, que em francês é também uma forma como é conhecida a Sífilis, uma doença sexualmente transmissível. 
(2) - «tu não te importaste quando mentiste, nós não nos importamos quando tu morreste
Comentários (3)
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Motivo:
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Maggie
2015-01-27 17h04m por tribelas
Uma grande mulher que salvou um pais por isso mesmo odiada por muitos em especial por aqueles que o queriam destruir, só é trágico que quando chega um politico que diz as verdades duras ao povo ainda é chamado de mentiroso. No final o povo tem o que merece e afunda-se na lodaçal de burrice e ingenuidade. A Thatcher comprendia o sistema de auto-destruição progressiva e subversão dos ideais socialistas mas numa Europa tão contaminada era dificil ter reconhecimento talvez nos EUA fosse entendida e adorada.
ko
Já morreu tarde
2013-04-30 16h36m por koshito
“You didn’t care when you lied, we don’t care that you died".
AG
Thatcher
2013-04-27 17h13m por AGUIA_A_MURRO
Uma mulher com férreas convicções. . . desprezíveis. Não se perdeu muito.
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