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história
Táticas

Futebol total

2013/03/27 11:41
Texto por João Pedro Silveira
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As peças de um puzzle

No fim da década de sessenta, quando o homem se aproximava da lua, os Beatles caminhavam para a separação e as juventudes da Europa e dos Estados Unidos protestavam abertamente contra o estado do mundo e a Guerra do Vietname, no futebol surgia também uma revolução sem par no «desporto-rei».

Nos últimos anos da década de todas as liberdades, os Países Baixos apresentavam ao mundo uma invenção tática conhecida como totaalvoetbal, futebol total em português, uma inovação que revolucionou por completo o jogo, ajudando a transformar, o até aí quase desconhecido e inofensivo futebol holandês, na máquina mais temida do seu tempo.

Rinus Michels e Johan Cruijff (em Barcelona) as duas faces do «futebol total».
O Ajax foi o impulsionador desta revolução futebolística, deste «carrossel mágico», em que com as suas rotações de posições em campo, fazia lembrar as pás de um dos muitos moinhos que se podem encontrar na paisagem holandesa. 

Cada jogador era uma peça fundamental de um puzzle, mas ao contrário de tantas táticas anteriores, em que só havia um lugar onde encaixar cada peça, no totaalvoetbal uma peça tinha de poder encaixar em todo o lado, podendo o puzzle ser sempre «acabado» com qualquer uma das peças...

Michels e Kovacs

Rinus Michels, o inventor do «futebol total», defendia que cada jogador tinha de ser capaz de tomar o lugar e cumprir a função de qualquer colega em campo, tornando assim pelas rotação das posições dos seus jogadores em campo, virtualmente impossível de travar a equipa. 

Quando se olhava num quadro de treinador, o onze desenhado, devidamente esquematizado, sobressaía logo à primeira vista um claro 4x3x3. Contudo, quando se observava o mesmo «onze» no relvado, nenhum dos jogadores mantinha uma posição fixa. Num «esfregar de olho», o 4x3x3 transformava-se num mais comedido 4x4x2 ou num atacante 3x4x3, com os jogadores a tomarem no campo a nova posição, jogando com a mesma eficácia que na anterior, como se tivessem jogado toda a vida naquele lugar. Tudo se resumia a reordenar o espaço e encontrar «buracos» no esquema do adversário.

Stefan Kovacs, o romeno que substituiu Michels em 1971/72, quando este partiu para o Barcelona, defendeu que o sucesso do clube de Amesterdão se devia ao coletivismo. «Ao Brasil, sem Pelé, ganhava-se com facilidade. Ao Real Madrid, sem Di Stéfano, também. O Ajax sem Cruijff, Keizer ou Neeskens continuava uma força coletiva. Uma equipa de futebol deve ser como uma empresa, só que sem gerentes, apenas trabalhadores», argumentou um dia quando escreveu sobre a sua experiência no Ajax, sumarizando que: «O futebol simples é o mais belo de todos. Mas jogar futebol simples é a forma mais difícil de todas as formas de jogar.».

1971: a primeira conquista europeia do Ajax, a Taça dos Campeões, vencida ao Panathinaikos em Wembley por 2x0.
Barry Hulshoff, defesa central que jogou com Michels e Kovacs, resumiu brilhantemente essa preocupação pela procura do espaço e pela simplicidade de processos: «tudo se resumia a criar espaços, aparecer nos espaços, organizar espaços como se se tratasse de arquitetura num campo de futebol.» O futebol aproximava-se da arte. A beleza da simplicidade, o elogio do natural. Inconscientemente, também o futebol imitava as belas artes, que desde sempre, em renovados movimentos artísticos tentavam captar o essencial, defendendo que o simples era o mais belo.

Como os grandes mestres da escola flamenga do século XVII que fizeram renascer a pintura, também se deve aos Países Baixos a revolução dentro das quatro linhas. Michels não será Rembrandt, mas a sua obra terá encantado no minímo tantos, como a obra do Mestre de Leida, que viveu e morreu na mesma Amesterdão que séculos mais tarde veria nascer o «futebol total».

Legado: do Ajax ao tiki-taka

O impacto desse futebol intricado, inovador, apaixonante, artístico, mas acima de tudo vencedor, foi de tal forma duradouro que ainda hoje perdura na memória do adepto comum e é recriado e revitalizado nas suas renovadas encarnações por muitos treinadores, como Cruijff com o dream team «blaugrana» dos anos 90 e o seu «aprendiz» Pep Guardiola, impulsionador do «multi vencedor» Barcelona dos nossos dias.

Espanha, onde Michels treinou e Cruijff jogou e treinou, é - juntamente com a Holanda - a principal herdeira do «futebol total». Em terras espanholas, além do Barcelona, também o Athletic Bilbao de Marcelo Bielsa e a própria seleção espanhola - tanto com Luis Aragonés, como com Vicente del Bosque - abraçou o «futebol total», nacionalizando-o e transformando-o no famoso tiki-taka.

Stefan Kovacs levado em ombros pelos atletas no fim do jogo com a Juventus, depois da conquista da terceira Taça dos Campeões em 1973.
Além de terras castelhanas, o «futebol total» também é homenageado deste lado da fronteira nas equipas «todas para a frente» de Jorge Jesus, que nunca escondeu dever muito da sua filosofia atacante ao mítico «dez» holandês, que por sua vez era devedor do grande mestre Rinus Michels. 

Antepassados: do wunderteam à magia húngara

Vários são os possíveis progenitores do futebol total, com que o Ajax conquistou primeiro a Holanda, depois a Europa e por último o Mundo, antes de Michels no banco e Cruijff no relvado, revolucionarem o futebol, já antes outras equipas e treinadores, tinham ajudado a mudar a face do jogo.

Os húngaros, que maravilharam o mundo com a sua equipa de sonho nos anos cinquenta, foram os primeiros a apresentar um esquema tático que podia ser considerado uma versão pioneira do futebol total. Jack Reynolds, o inglês que orientara o Ajax entre os anos vinte e quarenta, estudara as táticas inovadoras que os magiares tinham começado a usar nos anos trinta e quarenta, levando para Amesterdão os mesmos princípios de liberdade de acção no campo. 

Nos anos trinta, criou a primeira grande equipa do Ajax, que dominou por completo o futebol local. A guerra impediu a continuação do trabalho e a ascensão do futebol holandês, mas findo o conflito, Reynolds voltaria para relançar as bases do nascimento do grande Ajax.

A Laranja Mecânica no mundial de 1974. Na ponta esquerda, com a braçadeira de capitão e o mítico número «14», Johan Cruijff, a estrela cintilante de uma das maiores equipas de futebol de todos os tempos.
Outra referência do «futebol total» foi o wunderteam austríaco de Hugo Meisl, a mais apaixonante equipa europeia dos anos trinta. A capacidade de rotação dos jogadores e a liberdade do grande artista - Matthias Sindelar, o «homem de papel», «Mozart do futebol» - já podem ser facilmente reconhecidos na formação austríaca, que seria abruptamente desmantelada com a anexação alemã em 1938.

Ernst Happel, o craque austríaco dos anos cinquenta, seria o herdeiro das teorias de Meisl, levando o seu brilhantismo tático para os Países Baixos, onde treinou o ADO Den Haag e o Feyenoord, com quem foi o campeão europeu, antes de levar a Holanda a uma segunda final de um mundial em 1978 na Argentina.

Chegada de Michels

Rinus Michels, avançado do clube nos anos quarenta, bebeu dos ensinamentos do treinador inglês, que quis refinar e pôr em prática nos anos sessenta, quando foi chamado a liderar os de joden.

Quando chegou ao clube ficou impressionado com um rapaz franzino, com uma técnica acima da média, que com apenas 17 anos se estreara na primeira equipa do Ajax. Michels percebeu que Johan Cruijff seria o segredo do seu sucesso, criando um esquema centrado nele e nas suas capacidades.

À sua volta foi reunindo um conjunto de jovens promessas, que se juntando a antigas referências do clube, formaram uma equipa que se lançou à conquista da Holanda e da Europa.

O emergir do Grande Ajax

1967 foi o ano em que o nome do Ajax surgiu como um meteoro na cena futebolística europeia, com os holandeses a esmagarem o Liverpool por 5x1, em jogo a contar para a Taça dos Campeões europeus. Seguiram-se novas campanhas de sucesso... A 19 de fevereiro de 1969, o Ajax encontrou o Benfica nos quartos-de-final. Os portugueses eram vice-campeões europeus e grandes favoritos.

A Laranja Mecânica apaixonou o mundo, com as suas cores a serem reproduzidas em todos os formatos possíveis e imaginários. Aqui numa equipa de subbuteo, um dos jogos de futebol muito em voga na época.
Em Amesterdão, Eusébio e companhia fizeram estragos, vencendo por 1x3. Todos pensavam que a eliminatória estava resolvida. Mas quinze dias passados, o Ajax foi a Lisboa dar uma nova imagem das suas capacidades, realizando uma magistral exibição e vencendo por 1x3, obrigando a terceiro jogo, que foi vencido com um claro 3x0. Era o nascer do grande Ajax europeu, que nesse ano, ainda acabaria vencido pelo Milan na final.

Dois anos depois, já ninguém parou Cruijff e companhia, e o Ajax chegou finalmente a glória, com a vitória sobre o Panathinaikos, na final de Wembley, a que se sucederam mais duas vitórias e um histórico tricampeonato europeu, até aí só atingido pelo «super» Real Madrid dos anos cinquenta.

A morte do Catenaccio

A Taça dos Campeões de 1972, provou ser a melhor hora do futebol total, com o Ajax a bater o Inter por 2x0, com a imprensa europeia em delírio, anunciando - talvez precocemente - a «morte do Catenaccio». Nos Países Baixos, o Algemeen Dagblad ufanamente proclamava na primeira página: «O sistema do Inter ficou em cacos. O futebol defensivo acabou!»

Um ano depois, era a vez da Juventus perder a final para o Ajax (1x0), ficando totalmente vingada a pesada derrota de 1969 com o AC Milan. O futebol defensivo dos italianos, que se tornara a força dominante na Europa, superiorizando-se ao futebol romântico do Real Madrid primeiro, e Benfica depois, acabava de encontrar uma força superior.

O «futebol total» relegou o rigor defensivo italiano para uma longa travessia do deserto, com os gigantes de Itália, a sofrerem a dominação holandesa, a que se seguiu a alemã e depois a inglesa. Só com a Juventus de Platini em 1985 e o maravilhoso Milan de Arrigo Sacchi no fim da década de oitenta, a Itália voltaria a emergir como força dominante do continente, mas isso são contas de outros rosários...
 
A Laranja Mecânica
 
Paralela à ascensão do Ajax, está a mítica seleção holandesa que encantou o mundo em 1974. Michels, abandonara o Ajax em 1971, seduzido pelas pesetas do FC Barcelona. Contudo, a sua influência continuou no futebol holandês, sendo chamado para orientar a seleção no mundial de 1974, a primeira qualificação holandesa para uma grande competição desde 1938 em França.
 
Neeskens aponta o primeiro golo da final de 1974. Todavia, os alemães ocidentais acabariam por dar a volta e vencer por 2x1.
Com o surgimento da geração dourada de Cruijff e companhia, a Holanda começara a aproximar-se da qualificação, ficando perto da mesma no Euro 1972, mas ainda não fora suficiente para ultrapassar as consolidadas seleções da Bulgária e Polónia. 
 
No caminho para terras alemãs, a Holanda tivera que se bater com a vizinha Bélgica, com quem empatou os dois jogos a zero. Contudo, nos restantes quatro jogos, a Laranja Mecânica apontou 24 golos, sofrendo apenas dois, batendo de longe o score belga de 12x0.
 
Alemanha 1974, um verão em tons de laranja
 
Chegados à Alemanha Federal, os holandeses bateram a concorrência de uruguaios, búlgaros e suecos, garantindo a passagem à segunda fase, onde a elegância do seu futebol, encantou o mundo e deixou os adversários pelo caminho. Brasil, Argentina e Alemanha de Leste, todos foram derrotados, e nenhum foi capaz de apontar um golo que fosse a Jongbloed. 
 
Argentina x Holanda, no Monumental de Buenos Aires, na épica final de 1978.
Eram quatro da tarde em Munique(CET) quando o inglês Jack Taylor apitou para o começo da partida, os holandeses saíram com a bola, trocando esférico no seu meio campo, começando o seu famoso carrossel, fazendo a bola rodar pelo quarteto defensivo até chegar aos pés de Haan, que pára o jogo à espera que Cruijff venha buscar o esférico e leva-lo até ao meio campo contrário, passa então a Rijsbergen que deixa em Krol na esquerda que por sua vez joga para Rensenbrink que quase na esquina da área recua para Rijsbergen, para depois atrasar o jogo até Cruijff no círculo central.

O «14» pega na bola, avança em direcção a Vogts, deixa o defesa do Mönchengladbach e quando está a entrar na área, é derrubado por Uli Hoeneß, Taylor não hesitou e apontou para a marca dos onze metros. Neeskens pegou no esférico e desfeitou Sepp Maier. 0x1! Um minuto de jogo jogado e a Holanda estava na frente, emudecendo os anfitriões, com treze trocas de bola até à entrada descuidada de Hoeneß sobre Cruijff.
 
Rinus Michels não podia ter sonhado num melhor começo para a sua equipa. A vencer, com a moral ao máximo, os seus craques podiam segurar o jogo e aproveitar o avanço alemão no terreno para resolverem a partida em golpes rápidos, à imagem do que tinham feito ao Brasil na segunda fase da prova (2x0).
 
Poucos podiam perceber nesse momento, mas a jogada de Cruijff tinha sido o único momento em toda a partida em que o holandês conseguiu fugir à marcação dos defesas alemães. A partir do primeiro minuto, Cruijff saiu do jogo, e com o «14» anulado, a Holanda nunca seria a mesma coisa. 
 
Sem tocarem no esférico, os alemães já perdiam o jogo. Qualquer equipa teria imensa dificuldade em recuperar de tal golpe, nem a Alemanha seria exceção. Do outro lado do campo, os holandeses tomaram o golo como a confirmação da sua superioridade. 
 
Cruijff, Neeskens, Rensenbrink, Haan, Rep, Krol e companhia começaram a trocar o esférico, sentindo que podiam humilhar os alemães com a sua posse de bola. Do outro lado, Beckenbauer incentivava os colegas. 

Enquanto os holandeses jogavam para as bancadas, ou como se diria hoje, para a «nota artística», os alemães faziam por sobreviver e manter-se "agarrados à vida", taticamente organizados, enquanto a «Laranja Mecânica» se desorganizava, baixando os níveis de concentração.
 
Aos 26 minutoz Bernd Holzenbein tentava furar em direção à baliza holandesa, quando Wim Jansen esticou a perna e derrubou o extremo-esquerdo alemão. Paul Breitner pegou na bola e fuzilou a baliza de Jongbloed. 1x1, a final voltava à estaca zero.
 
Os alemães recuperaram confiança e viraram o resultado, a Holanda parecia tolhida pelo medo, demorou a reagir, quando tentou a Mannschaft levantou um muro em frente da baliza de Meier. A Laranja Mecânica bem tentou, mas a vitória sorriu aos alemães. 20 anos depois de Berna, o futebol mais revolucionário do seu tempo, o vencedor anunciado, caía às mãos do pragmatismo alemão. 
 
O último tango, ou a despedida
 
Quatro anos depois, já sem Cruijff, que se recusara a jogar na Argentina por razões políticas. Além de Cruijff faltava também Michels, no seu lugar estava Ernst Happel, tal como a Argentina, a Holanda não brilhou durante a competição e chegou ao jogo decisivo a apresentar um futebol bem distante daquele que encantara na Alemanha Federal.
 
O jogo foi equilibrado e só seria resolvido no prolongamento, quando Kempes resolveu a partida. A Holanda perdia a segunda final consecutiva e passava para a história como a melhor equipa do Mundo a nunca vencer um mundial...
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