história
Evolução do Jogo

Freemason´s Tavern: o nascimento do futebol

2012/10/26 16:06
Texto por João Pedro Silveira
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Era mais um dia como tantos outros na Londres vitoriana que Charles Dickens tão bem retratou. Bandos de crianças corriam pelas ruas à procura de uma moeda, charretes passavam a grande velocidade pisando poças de águas e ignorando os pobres que se acumulavam nas ruas. A cidade estava «infestada de ratos, pedintes e prostitutas» nas palavras de um cronista da época.

Um grupo de homens, representando 13 clubes de Londres e outras cidades da Inglaterra, encontraram-se na Fremason´s Tavern, na Long Acre, a dois passos de Covent Garden, no fim da tarde de uma fria segunda-feira. Corria o dia 26 de outubro de 1863, o futebol moderno nascia e o mundo nunca mais voltaria a ser igual... Contudo, a nossa história começara mais cedo...

Rule Britannia!
 
A capital inglesa era então o centro nevrálgico de um sistema comercial que se espalhara com as suas raízes pelos cinco continentes e pelos sete mares. A Union Jack flutuava dos confins gelados do Canadá à Nova Zelândia, o Império Britânico era o maior império da história, e a Rainha Vitória o monarca com mais poder desde a aurora da humanidade.
 
Rainha Vitória de Inglaterra, soberana dos ingleses entre 1837 e 1901.
No seu auge, o Império Britânico ocupava um quarto do planeta, e Londres era a metrópole imensa onde todos acediam, dos confins do Império, às mais remotas zonas da Inglaterra rural, Londres a todos chamava, crescendo de ano para ano de forma desmesurada e descontrolada...
 
Um novo modo de vida
 
A Revolução Industrial avançava pela ilha e pelo mundo. Comboios atravessam a Inglaterra em todas as direções, barcos a vapor chegavam aos portos britânicos transportando matérias-primas dos quatros cantos da terra. Chaminés de tijolos cobriam as paisagens urbanas inglesas, soltando nuvens negras, e as cidades eram cobertas por uma nuvem constante de fumo.
 
As cidades ficavam cobertas de fuligem, as doenças grassavam e a esperança média de vida decaía para números que remontavam quase às trevas da Idade Média. A pobreza extrema, as precárias condições de saneamento e a falta de higiene provocavam constantes razias entre as crianças, os mais velhos e os mais fracos.
 
As slums inundavam a paisagem inglesa, a criminalidade atingia níveis nunca antes vistos. Esta era a Londres das prostitutas de Jack The Ripper, da violência criminosa das histórias de Sherlock Holmes, ou da pobreza humilhante, da avareza extrema e da exploração dos trabalhadores dos romances de Dickens, como o intemporal «Oliver Twist».
 
Nas fábricas, homens, mulheres, crianças, todos trabalhavam em média entre doze a dezasseis horas por dia, seis dias por semana. A Revolução Industrial mudara hábitos de séculos, e em poucos anos, um modo de vida e tradições de gerações incontáveis caía em desuso, abrindo espaço para um mundo novo. Os antigos verdes pastos de Inglaterra, que tinham sido cantados por Chaucer, Shakespeare e Blake, davam lugar a triste paisagem cinzenta da era industrial.
 
Com a sua pobreza e insalubridade, as slums eram a imagem de marca da Inglaterra vitoriana
Para maioria dos ingleses, os poucos tempos livres eram dedicados ao descanso, mas as elites há muito que praticavam desportos, como forma de combater um certo ócio instalado nas classes mais altas. Vários desportos nasceram então na Grã-Bretanha, e um deles, o futebol, uma reminiscência do velho jogo medieval que se jogava um pouco por toda a Inglaterra, passou a ser jogado por muitos jovens em alguns dos melhores colégios e universidades do país. 
 
Um jogo com tradição
 
Desde a Idade Média que há registos de jogos de futebol populares um pouco por toda a Inglaterra, disputados por multidões, ao ponto de em alguns dos jogos participar quase toda a população da aldeia, ou até o jogo ser disputado por entre duas localidades. A popularidade do jogo era tal, que se tornou uma praga para as autoridades, que alarmados com os movimentos das multidões, e os abusos, e até mortes provocadas pelo jogo, resolveram banir o futebol. 
 
Em 1314, o Mayor de Londres proíbiu o jogo na cidade, e ainda durante o mesmo ano, o Rei Eduardo III proclamou a proíbição total do jogo na capital inglesa. Seguiram-se novas proíbições nas décadas e reinados seguintes e até 1667, mais de trinta decretos municipais ou reais, decretaram a proíbição do jogo na Grã-Bretanha.
 
Durante o século XVI, com o intuito de canalizar a energia e agressividade dos alunos, alguns colégios e universidades começaram a incluir os jogos de futebol na formação física e desportiva dos alunos. 
 
Um jogo, tantas regras
 
Até ao século XIX, o número de universidades, escolas públicas e privadas que jogavam futebol foi crescendo, mas cada uma com o seu próprio conjunto de regras, algumas bem diferentes das outras. Por exemplo, enquanto Shrewsbury e Winchester jogavam um jogo à base do pontapé na bola e da finta, por sua vez, Rugby, Marlborough e Cheltenham davam predominância às mãos. Por sua vez em Westminster disputava-se um jogo mais rude, com a permissão de tackles.
 
Por esses anos, Eton e Harrow começaram a disputar jogos ao ar livre, enquanto os outros ainda os disputavam em claustros. A passagem para campos de grande dimensão, permitia uma maior utilização de pontapés para se efetuarem passes longos. 
 
Esta diversidade das regras de escola para escola dificultava de sobremaneira a evolução do jogo, impedindo que os jogadores quando regressavam a casa pudessem disputar jogos com os amigos provenientes de outras escolas e universidades, pois cada um trazia consigo o seu próprio conjunto de regras, gerando amiúde as mais acaloradas discussões.
 
Uma noite em Cambridge
 
Para pôr fim a esse estado de coisas, em 1848, em Cambridge, representantes de diversos colégios e universidades, reuniram-se no Trinity College por intermédio de H.C. Malden, com o intuito de criarem as primeiras regras comuns.
 
Ilustração que representa diversos momentos de um jogo de futebol segundo as regras de Cambridge.
Um conjunto de folhas brancas e lápis, aguardavam cada um dos representantes das diversas tendências. Pediu-se a cada um que trouxesse consigo um exemplar das regras do futebol que se disputava na sua escola.
 
Esse fim de tarde/noite que durou até altas horas da madrugada, ficou marcado na história do futebol como seu acto fundador, o documento original não chegou aos nossos dias, assim como não existe nenhuma cópia do mesmo, mas é ponto assente que pela primeira vez as leis do futebol ficaram definidas. O futebol dava o seu primeiro grande passo.
 
As regras de Sheffield
 
Contudo, o futebol tinha deixado de ser um exclusivo dos jovens elitistas dos colégios e universidades, extravasara os muros das Universidades e passara a ser praticado por muitos jovens operários, que foram criando os seus clubes, e adaptando as regras, sendo talvez as mais famosas de todas, as que ficaram conhecidas como Regras de Sheffield.
 
Em Sheffield e por todo o  Yorkshire, em Lancanshire, nas Midlands, ao redor das grandes cidades industriais como Birmingham, Manchester ou Liverpool, surgiam os mais diversos clubes, formados maioritariamente por esses mesmos jovens trabalhadores da indústria ou dos caminhos-de-ferro, que nunca tinham passado pelas Public Schools , muito menos pelas escolas privadas e, ou as Universidades, de onde provinham os principais defensores das regras de Cambridge.
 
Este massa operária e a pequena burguesia, amante do jogo de Domingo, sentia mais facilidade em praticar as regras de Sheffield, simplificadas, abdicando quase sempre da lei do fora-de-jogo. Seriam estes jovens que em 1857, fundaram o Sheffield Football Club, aquele que é reconhecido pela FIFA como o mais velho clube do mundo. 
 
Freemason's Tavern
 
Apesar de ser complicado estabelecer uma data exata e consensual, o 26 de outubro de 1863, é geralmente reconhecido como o dia do nascimento do futebol, pois foi o dia em que nasceu a The Football Association.
 
Algum tempo antes, Ebenezer Cobb Morley, um advogado de Hull, que anos antes fundara o Barnes FC, escreveu uma carta ao jornal Bells Life, pugnando pela necessidade de se criar um organismo que pudesse regular o jogo e redigisse um conjunto uniformizado de regras.
 
Freemason´s Tavern, o berço da The Football Association.
Como exemplo, na sua casa de Barnes, redigiu um esboço das leis do jogo, baseado nas leis de Cambridge, que seriam aprovadas nas reuniões da Freemason's Tavern. Seriam estas as famosas 13 leis da The Football Association, um conjunto de regras, que com poucas alterações, ainda hoje regem o jogo mais amado do mundo.
 
Ebenezer foi incansável no seu propósito, convidando as diversas escolas e clubes de Londres, para a tão necessária reunião, com vista à regulamentação de um novo código de futebol. 
 
Barnes, Blackheath, Blackheath Proprietary School, Bucks FC, Charterhouse, Civil Services, Crystal Palace (não confundir com o Crystal Palace actual), Forest of Leytonstone (futuro Wanderers FC), Kesington, NN Football Club, Perceval House, Surbiton e The Crusaders, foram os clubes que responderam à chamada. 
 
The Football Association
 
Entre 26 de outubro e 8 de dezembro de 1863, realizaram-se seis reuniões na Freemason's Tavern, e logo na primeira reunião fundou-se a The Football Association. Durante as duras negociações, os apoiantes do jogo com as mãos e de um jogo mais duro com tackles não aceitavam as alterações propostas pela maioria, que consideravam uma traição ao tão amado jogo das suas infâncias e dos seus colégios natais.
 
Ebenezer Cobb Morley, o principal responsável pela fundação da The Football Association e o seu segundo presidente.
Todavia, a maioria defendia que as leis de 1848 deviam ser preservadas, com a exceção da permissão de se jogar a bola com as mãos e a possibilidade de efetuar tackles sobre os adversários, para deceção do representante de Blackheath, que acabou por abandonar a reunião em absoluto desagrado com o decidido, sem não antes dizer que a eliminação do jogo físico «iria acabar com toda a coragem e bravura do jogo», adiantando que seria «obrigado a trazer um monte de franceses» que iriam ser capazes de bater os representantes dos restantes clubes só com uma semana de treino. 
 
Os franceses nunca chegaram para demonstrar a veracidade da sua teoria, mas Blackheath abandonou a The Football Association e preservou as antigas regras, num ato de ruptura que ajudou a separar definitivamente o futebol do seu primo que ainda hoje é jogado com a bola oval.
 
O futebol moderno
 
Com a fundação da Federação Inglesa, Arthur Pember tornava-se o seu primeiro presidente, enquanto Ebenezer Cobb Morley se tornava o primeiro secretário.
 
Porém, e apesar das novas leis, durante alguns anos, continuaram as divergências sobre as leis, e até ao final dos anos 1870, os seguidores das regras de Sheffield rejeitavam abertamente as regras londrinas.
 
Seria somente em 1878, que se deu a fusão definitiva entre os códigos de Sheffield e Londres. A criação do International Football Associaton Board em 1886, pôs termo a todas as divisões, e a partir desse dia, o futebol era regido por um único conjunto de leis, o que a somar à criação de competições regulares como a FA Cup (1872) e a Football League (1888), marcou definitivamente a emergência do futebol moderno.
 
Para a história fica a reunião de 26 de outubro, o dia em que o desporto do povo deu um passo sem retorno em direção ao futuro.
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