PortuguêsEnglishFrançaisEspañolDeutschItalianoBrasilInternational
RSS
Facebook
Twitter
Blog
Mobile

Pedro Mantorras: a Alegria da Luz

Biografia

Pedro Mantorras: a Alegria da Luz
BIOGRAFIA
Pedro Mantorras: a Alegria da Luz
Autor: João Pedro Silveira
copyright © zerozero.pt
2013-01-17 18:22:57
O jogo podia estar a correr mal aos encarnados, os passes não saíam, as jogadas emperravam, os remates pareciam não ter rumo. Na Luz, ouviam-se alguns assobios e contestação ao treinador, mas tudo parava, quando o treinador olhava para o banco e mandava um jogador aquecer.

Ouvia-se o bruaá nas bancadas do anfiteatro benfiquista. «Aí vem ele!», o público apoiava e gritava «Benfica! Benfica! Benfica!», a equipa acordava e começava a jogar. Bastava Pedro Mantorras começar a aquecer, para a equipa reagir e o adversário sentir a força do terceiro anel e tremer...

O efeito-Mantorras, como alguns lhe chamaram, é um caso de estudo da sociologia e da psicologia. Como é que um jogador com limitações, que só podia jogar 20 minutos por partida, podia de tal maneira despertar tanta alegria e confiança nos adeptos, empolgar a própria equipa e atemorizar os adversários?

As respostas, como em tantas outras questões emblemáticas do futebol, ninguém as tem. É futebol dirão alguns, e a bola tem esta relação especial com os seus heróis... Os golos, a carreira promissora e uma vida que tinha tudo para ser trágica, mas que se tornou numa paixão de multidões, tornaram Mantorras no menino bonito da Luz, a alegria benfiquista, a festa do futebol.

Menino do Huambo

Pedro Manuel Torres nasceu a 18 de março de 1982, no Huambo, em pleno Planalto Central de Angola. Aí foi crescendo, sendo mais um dos muitos «Meninos do Huambo» eternizados «à volta da fogueira» na canção/poema do cantor angolano Ruy Mingas. O pequeno Pedro cresceu num período difícil da história de Angola, quando esta se encontrava dividida pela luta fratricida entre o MPLA e a UNITA.

Ao contrário da capital, o Huambo, estava desde 1976 no centro da luta entre os dois grupos armados, sofrendo constantes ataques de ambas as partes e assim se manteria durante grande parte do interminável conflito.

Nos anos noventa, após o falhanço do Acordo de Bicesse e das tréguas, a cidade foi praticamente destruída, com combates casa a casa, provocando milhares de mortos e feridos, tornando a vida na cidade um total inferno para os locais. Com medo que os filhos crescessem naquele ambiente de guerra, violência, fome e ódio, a mãe, Dona Cristina Inácio, viúva de Domingos Manuel «Lixa», voltou para Luanda com os seus meninos, onde viveram com imensas dificuldades no bairro de Sambizanga.

Vida difícil em Sambizanga

Em Luanda, com o problema de saúde da mãe, o pequeno Pedro tornou-se responsável pelos irmãos mais novos, trabalhando nas ruas, mendigando ajuda alheia e jogando futebol sempre que podia, num dos imensos descampados, onde os rapazes jogavam à bola com um esférico improvisado com trapos ou papel.

Sonhava jogar um dia no Sporting de Lisboa, mas a mãe colocava água na fervura, dizendo-lhe que esquece-se a bola e se concentrasse no trabalho.

Desses primeiros anos difíceis, guarda a alcunha de Mantorras, ganha após um acidente com uma panela com água a ferver em que se queimou, provocando-lhe ligeiras queimaduras. Durante o acidente, os amigos gritaram «Cuidado! Mano torras!», e saradas as feridas, pouco depois, o «Mano torras» tornou-se Mantorras, o herói do bairro de Sambizanga.

Começou no Progresso de Sambizanga e sonhava jogar no Primeiro de Agosto. Deram-lhe pela primeira vez chuteiras para calçar, mas não se habituava e teimava em jogar descalço. Custou a habituação, mas acabou por singrar nos juvenis do clube, ao ponto de passar logo para os juniores, chegando à primeira equipa e tornando-se titular apenas com 16 anos. Com o dinheiro que ganhava, podia comprar o arroz, açúcar e demais bens essências para alimentar a irmã e o irmão mais novos.

De Sambizanga para Alverca (com passagem por Barcelona)

Carlos Alhinho, que era o selecionador nacional, chamou-o para vestir a camisola dos «Palancas Negras», num jogo com a Etiópia, onde aponta o golo decisivo que valeu a vitória de Angola. Passa a jogar na seleção de esperanças, e é com ela que vai a Portugal pela primeira vez, onde participa num torneio e desperta o interesse de diversos clubes. 

A Luanda chegou uma proposta do Barcelona, e o empresário Jorge Mendes, levou-o para a «Cidade Condal», onde agradou aos treinadores blaugrana, mas um desacordo de verbas, fê-lo ter de regressar à casa da partida, volvidos somente três meses. 

Seria então a vez do Alverca o resgatar a um destino complicado, chegando-se à frente de leões e águias, que também desejavam contratar o jovem prodígio angolano. 

Em Alverca cresce, protegido por colegas, mas especialmente pelo presidente Luís Filipe Vieira, que o trata como um filho, "adotando-o", tornando-o uma visita habitual para jantar em casa da sua família.

No Ribatejo, brilha com a camisola azul-e-vermelha, tornando-se na nova coqueluche do clube, subindo de divisão, e apontando nove golos na primeira época na Primeira Liga. O estrelato chega a 17 de fevereiro de 2001, quando uma exibição de sonho e um grande golo, ajudam a derrotar o campeão Sporting por 3x1. 

«Deixem jogar o Mantorras!»

Luís Filipe Vieira, que entretanto se mudara para o Benfica para fazer parte da nova direção eleita por João Vilarinho, leva-o consigo para a Luz, onde é recebido em euforia pelos adeptos, que rapidamente o consideram o novo Eusébio.

O próprio Eusébio da Silva Ferreira, não hesita em lhe prever um futuro radiante, ajudando ao estado de euforia com que os encarnados começam o campeonato. Na Póvoa do Varzim, o Benfica chega com facilidade ao 0x2, mas uma reação varzinista nos últimos minutos arranca um empate ao Benfica

Mantorras, apagado, foi vitima da marcação cerrada do central poveiro Alexandre, não conseguindo fazer a diferença que se esperava. No fim, os dirigentes do Benfica não calaram a revolta, e para a memória futura ficou o apelo de Luís Filipe Vieira: «Deixem jogar o Mantorras!»

A «Alegria da Luz»

Essa época seria marcada pela sua primeira lesão e o início do longo calvário da sua carreira. O Benfica, na ressaca do período Vale Azevedo, afundou-se num impensável sexto lugar, que muitos pensavam ser culpa da ausência do craque de angolano.

Entre 2002 e 2004, Mantorras sofreu quatro intervenções ao joelho, regressando com limitações na época 2004/05 a tempo de ajudar o Benfica a conquistar o Campeonato. O italiano Giovanni Trapattoni, percebeu que apesar das limitações, Mantorras podia jogar um quarto de hora a vinte minutos, e que durante esses momentos, podia ser fundamental para a equipa.

Os benfiquistas, começaram a puxar pelo seu ídolo sempre que Trap o mandava aquecer. Começava o «efeito Mantorras» e o angolano tornava-se na «Alegria da Luz». Em quinze presenças nessa época, apontou cinco golos, quatro deles nos últimos dois meses de competição, o que o tornou num ídolo das massas benfiquistas.

Não obstante a sua recuperação ser constantemente adiada, muitos - e o próprio - acreditavam que a recuperação chegaria um dia e seria total. Contudo, para tristeza de Mantorras, dos benfiquistas e dos apaixonados de futebol, o angolano nunca mais voltaria a ser o mesmo jogador, e só resta conjeturar a carreira que podia ter tido, se não fosse a malfadada lesão.
 
Após alguns anos com contribuições diminutas para as campanhas benfiquistas, Mantorras colocou um fim à sua carreira no Benfica, em meados de fevereiro de 2011, a apenas um mês de festejar o 29º aniversário.
 
Foi tentar a sua sorte em Angola, no Primeiro de Agosto, onde tinha sonhado jogar quando era criança, mas o joelho não deixou, acabando por desistir pouco depois.
 
Em Junho de 2012 regressou à sua casa, tornando-se num embaixador itinerante do Benfica, vendo reconhecido pela direção o seu papel de símbolo benfiquista e de ídolo dos adeptos. A sua devoção ao Benfica custou-lhe um papel mais fundamental na seleção, onde o Mantorras do Benfica nunca parecia jogar, marcando apenas quatro golos em 29 jogos pelos «Palancas Negras», ficando para a memória, uma convocatória e presença no Mundial da Alemanha em 2006, a primeira vez que Angola jogou o torneio mais importante do Mundo.
Comentários
Gostaria de comentar? Basta registrar-se!
Ainda não foram registados comentários...
TÓPICOS RELACIONADOS
JOGADORES
EQUIPAS
EDIÇÕES
JOGADORES
Mantorras
Angola Mantorras
32 anos - Avançado
Percurso: Progresso, Alverca, Benfica
ANGOLA
Angola
Angola Angola
1979-08-09
BENFICA
Benfica
Portugal Portugal
1904-02-28
ALVERCA
Alverca
Portugal Portugal
1939-09-01
1º DE AGOSTO
1º de Agosto
Angola Angola
1977-08-01