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Treinadores

José Maria Pedroto: Zé do Boné

Texto por Cláudia Martins e João Pedro Silveira
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Rectidão, coragem, polémica, inteligência, frontalidade, são substantivos usados regularmente para caracterizar José Maria Pedroto, tanto por colegas como adversários. Muitos lembram o grande jogador, mas certamente é o treinador que marcou uma época no futebol português que está presente no imaginário de todos, um «homem à frente do tempo», como muitos o descreveram.

O carácter

Pedroto tinha um dom que muitos (entre companheiros e adversários) reconhecem como raro: uma capacidade de liderança inata. Era capaz de transformar as fraquezas das suas equipas e clubes em força, moldando à sua imagem as formações que comandava, tornando-as combativas, tremendamente competitivas e vencedoras.

qsempre se bateu de uma forma encarniçada pelas causas em que acreditava
Rui Pedroto
Há quem lhe chame feitio, personalidade... Rui Pedroto prefere dizer carácter, e o do seu pai, assegura, formou-se muito cedo, fruto de uma infância dura e cheia de restrições. «Teve uma infância difícil, porque ficou sem pai muito novo, com sete anos e tinha uma família numerosa, eram 11 filhos. O meu pai desde muito cedo percebeu o que era conciliar as suas responsabilidades escolares, a actividade desportiva nos escalões de formação e numa fase mais tardia da sua vida mas ainda jovem, ter que acorrer às despesas familiares e contribuir com os seus rendimentos para o sustento da família. Tudo isto forjou o seu carácter, deu-lhe tempra rija e uma capacidade de enfrentar os problemas e de ter coragem na forma como os resolvia muito grande».

Depois de ter sido um dos grandes jogadores do futebol nacional nos anos cinquenta (Lusitano de Vila Real de Sto. António, Belenenses e FC Porto), foi o responsável pelo primeiro troféu internacional do futebol português, conduzindo Portugal a conquistar o Campeonato Europeu de Juniores de 1961.

«A carreira iniciou-se nas camadas de formação, evoluiu para uma carreira de jogador de grande talento, várias vezes internacional, e depois surgiu a de treinador. Toda a sua vida foi pautada pela vivência próxima do fenómeno desportivo, sem descurar na sua juventude a questão escolar», recorda o filho, Rui Pedroto.

Depois de treinar o FC Porto e perdendo por pouco o campeonato, passou por Setúbal, onde foi responsável pela era dourada dos sadinos. No Bessa, colocaria a equipa das camisolas esquisitas a ombrear com os grandes e a discutir um campeonato taco-a-taco com o Benfica.

A relação com o FC Porto
 
Voltou ao FC Porto, de onde tinha saído em polémica uns anos antes, para levar os azuis-e-brancos a quebrar o jejum de dezanove anos em 1978. Nas suas palavras os portistas tinham passado de pombinhos provincianos a falcões moralizados.

qTenho a certeza que o meu pai sabia ser grato ao seu passado e àqueles que acreditaram nele, e foram muitos
Um pouco à semelhança dos grandes amores, a relação entre o emblema azul e branco e José Maria Pedroto era instável, aguerrida, acesa e polémica. Mas nunca de amor-ódio, afiança o seu filho, «apesar da sua faceta de polemista, porque sempre se bateu de uma forma encarniçada pelas causas em que acreditava. Acho que os sócios do FC Porto se habituaram a ver nele não só um treinador de excelência mas também uma figura de referência para o clube. Muitas vezes é preciso deixar passar um bom par de anos do desaparecimento das pessoas para se perceber qual a marca que deixaram».

Nascido em Almacave, Lamego, na freguesia onde supostamente se realizaram as cortes que coroaram Afonso Henriques como primeiro Rei de Portugal, Pedroto, era o mais novo de onze filhos do Capitão do Exército Alfredo Pedroto e Quitéria do Carmo. Depois dos primeiros anos em Lamego, acompanhou a família na mudança para a cidade do Porto, onde após a morte do pai estudou num colégio interno perto do Campo da Constituição.

Foi por essa altura que se apaixonou pelo azul e branco, tendo o madeirense Pinga como ídolo. A sua paixão pelo azul, estendia-se também ao Belenenses, clube onde brilhou antes de vestir a camisola do FC Porto, depois de uma transferência recorde, paga com dinheiro recolhido através de quotas que os sócios mais notáveis do FC Porto subscreveram.

«É natural que nutrisse pelo Belenenses uma simpatia especial. Confesso que isso nunca foi, nas nossas conversas, muito presente. Diria até que não era só pelo Belenenses mas por todos os clubes por onde passou como jogador e treinador. Tenho a certeza que o meu pai sabia ser grato ao seu passado e àqueles que acreditaram nele, e foram muitos», explica Rui Pedroto.

A fraterna amizade com Pinto da Costa

Pedroto além do grande jogador e do extraordinário treinador que foi, era, num país à época impregnado no mais profundo cinzentismo, um personagem que ilustrava com rasgos de humor e uma inquebrantável liberdade as páginas do dia-a-dia na comunicação social portuguesa, com a sua personalidade forte, ideias vincadas e combates polémicos.

Várias histórias ajudam a ilustrar o mito do Zé do Boné: as reuniões e cartadas, noite fora, numa célebre pastelaria do Porto com os seus compagnon de route, entre eles Pinto da Costa, que estão na génese do que viria a ser o FC Porto conquistador dos anos 80 e 90.

qA relação profissional com Pinto da Costa ajudou a construir à volta dela uma relação de amizade sólida e duradoura
Rui Pedroto
«Foi uma relação muito especial, de grande proximidade e cumplicidade nos tempos em que trabalharam juntos. Além da questão profissional, havia grande fraternidade e amizade pessoal. A relação profissional ajudou a construir à volta dela uma relação de amizade sólida e duradoura. Foi, seguramente, a pessoa que o acompanhou mais de perto, que o conhecia melhor nas suas diversas facetas e com quem partilhou as dificuldades mas também os momentos de maior glória desportiva mas que excedem e muito, e penso que é com essa ternura e saudade que ele fala, a mera relação profissional, mas que lembram sim o amigo desaparecido».

Nesta viagem ao passado, surgem-nos também as relações especiais com alguns jogadores, de entre eles António Oliveira, um dos seus protegidos, a quem supostamente o Zé do Boné dava autorização para fumar um cigarro antes de entrar em campo.

As relações polémicas com rivais

Mais tarde, Oliveira e Pedroto seguiram caminhos separados, mas Pedroto não se coibiu de comentar um famoso golo que Oliveira marcara com a camisola do Sporting numa competição europeia, desmistificando o golo, indicando que fora obtido desta maneira, porque Oliveira não executara bem o remate, chutando contra o outro pé e conseguindo tal miraculoso efeito que espantara os adeptos e comentadores desportivos do país. Alguns acusavam-no de não ter pejo na forma como criticava os adversários e os árbitros, mas era igualmente duro com colegas e jogadores.

Um pouco como o Bojador estava para os descobridores portugueses de quatrocentos, a Ponte da Arrábida «bloqueava» os jogadores do FC Porto. Atravessar o Rio Douro era o início da derrota portista. José Maria Pedroto nunca se conformou com tal estado de coisas e combateu com todas as suas forças essa menoridade portista.

Mas se os seus atletas eram espicaçados para a vitória, os adversários não eram poupados. O então seleccionador nacional Mário Wilson foi um «palhaço», Manaca - jogador do Guimarães - foi acusado de marcar um autogolo que impediu o tricampeonato portista e desviou o título para Alvalade.

Os rivais nunca conseguiram lidar bem com a força de Pedroto. Benfiquistas e sportinguistas sentiram na pele o génio do Zé do Boné e deixaram de dividir entre si os espólios do futebol nacional. Há notícias que dão conta que o leão João Rocha lhe lançou, um dia, o canto da sereia, mas Pedroto, irredutível, preferiu nunca estar ao leme de um rival.

Um símbolo que perdura

Polémicas, guerrilha verbal, exacerbado regionalismo, um profundo desprezo pelo provincianismo de um certo Porto, tudo isto movia José Maria Pedroto para atingir um só objectivo: a glória do Futebol Clube do Porto.

Após anos de intensa rivalidade e polémica, Pedroto, guarda um lugar muito especial no lugar dos portistas. Mas é admirado, porventura até reverenciado, em todos os clubes por onde passou, e mais do que isso, é penhor do mais profundo respeito e admiração dos rivais de Lisboa.

O lamecense, que se tornou um tripeiro de adopção, lembrava e não esquecia as imortais palavras de Almeida Garrett, um dos mais ilustres portuenses: «Se na nossa cidade há muito quem troque o b por v, há pouco quem troque a liberdade pela servidão».

Faleceu meses depois da derrota de Basileia, mas o grande FC Porto europeu estava lançado. Dois anos e meio depois da sua morte, nas margens do Danúbio, um FC Porto sem medo de ninguém subia ao mais alto degrau do continente e sagrava-se Campeão da Europa.

Comentários (10)
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motivo:
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2018-10-12 00h04m por bicampeoes12
amo te Futebol Clube Do Porto
Pedroto o Maior.
2015-01-22 16h52m por marioalex
Não foi o pioneiro na cultura do amor odio, foi sim o primeiro a dizer basta, para que os clubes do regime e de lisboa fossem sempre os vencedores para manterem a cultura dos 3 FFF. Foi o 1. º a lutar contra a corrupção de lisboa que mantinha os títulos na capital. Obrigado por tudo Zé do Boné o meu avô dizia que eras o maior e eu não tenho como duvidar, SOMOS PORTO!
JO
jmp
2014-08-11 22h26m por JoseTiagoVale
Para quem nao conhece o Pedroto, vao ver a reportagem que está o youtube, que deu na Sport Tv. Este homem, sim senhor tinhas as suas qualidades mas também tinha os seus defeitos, mas acima de tudo, este homem contribuiu não muito mas imenso ao futebol português. Níveis, tácticos, psicologia de jogo, psicologia de treino, preparação, etc etc. Se este homem não tivesse existido dúvido que gajos como Artur Jorge, José Mourinho, André Villas-Boas, etc se tivessem safado no mundo da b...ler comentário completo »
OS
pedroto
2013-01-08 02h38m por oscar-cardozo-7
o pioneiro da cultura do ódio e corrupção
Pedroto
2013-01-08 00h56m por Matosinhos_II
o treinador que pôs o Porto a varrer os da Capital.
Este aniversário infelizmente só é celebrado pelas gentes da Benfica TV.
WI
Pedroto
2013-01-08 00h29m por wildporto
Obrigado Pedroto, contigo começou uma viragem desportiva no País e abriu fronteiras para que começasse a abrir fronteiras regionais, o Norte agradece. . .
JO
Grande Pedroto
2013-01-07 22h01m por josemsantos
Pena não lembrar-me do tempo deste grande homem a frente do meu FC Porto. . . . Homem que cultivou a vontade de vencer que ainda se mantem hoje. . . . . . Obrigado Pedroto----Descanse em Paz
José Maria Pedroto
2013-01-07 21h07m por Baz15
simplesmente O MESTRE

Muito Obrigado pelo que deu ao FC Porto e ao futebol português.

CA
Pedroto
2013-01-07 14h31m por Carrela
O treinador mais importante da história do FCP! É com ele que deixamos de ser "aquele clube simpático que não ganha nada" para um clube que confronta os poderes estabelecidos e se emancipa para vir a ser o que é hoje!

Obrigado Pedroto!
UN
Pedroto
2013-01-07 10h37m por Unreal_zh_ch
Grande HOMEM. . . Descansa em paz Zé. . .
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