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Paolo Rossi: Il Bambino D'oro

Texto por João Pedro Silveira
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Caso Totonero

Em 1980 a carreira do avançado italiano tinha batido no fundo. Quando foi implicado no caso Totonero, no famoso esquema de apostas com resultados combinados, que escandalizou a Itália e deixou o país à beira de um ataque de nervos em vésperas do Euro 80. As autoridades transalpinas foram lestas e rapidamente entraram em ação num processo que levou à penalização de diversos clubes e jogadores, perante uma Itália escandalizada.
 
Rossi, que havia marcado três golos no mundial de 1978 na Argentina, não só foi implicado no caso, como foi considerado culpado e castigado com três anos de suspensão. 
 
Três anos longe do relvado é um castigo muito duro para um futebolista, mas ao menos, e ao contrário de outros implicados, Rossi não cumpriu pena efectiva de prisão.
 
O caso Totonero valeu uma suspensão a Rossi e quase lhe custou a carreira...
Para muitos, três anos sem tocar numa bola poderia significar o fim da carreira, o que no caso de Paolo, nem tinha sido até então uma carreira muito destacada, com passagens sem expressão pela Juventus e Como.
 
Só mais tarde, no Lanerossi Vicenza, é que demostraria o seu afamado faro pelo golo, sendo entretanto emprestado ao Peruggia. O seu envolvimento, e o envolvimento dos dois clubes a que estava ligado (Vicenza e Peruggia) quase lhe custaram a carreira... Mas para Rossi o futuro guardara um destino diferente...
 
Bearzot dá-lhe uma mão...
 
Já em 1982 a vida do jogador começou a mudar quando a Juventus o contratou, tendo ainda um ano de suspensão pela frente. O ano continuou com mais uma boa notícia: a confirmação do fim da suspensão em Abril de 1982, e logo de seguida, para surpresa geral, o selecionador transalpino Enzo Bearzot convocava-o para a Squadra Azzurra que iria disputar o mundial de Espanha.
 
A decisão do treinador foi abertamente criticada, e dentro da Federação, muitas vozes se levantaram contra a convocatória, em particular de Rossi, que além do envolvimento no Totonero, era considerado um avançado acabado...
 
Três jogos, três empates
 
E as críticas não paravam quando a Itália se arrastava em campo nos três primeiro jogos do mundial espanhol que valeram três empates. Polónia (0-0), Peru (1-1) e Camarões (1-1). Os italianos só passam para a segunda fase graças à diferença de golos.
 
Paolo Rossi fica sempre em branco, Bearzot é muito contestado e decreta o «silenzio stampa», que em Portugal é mais conhecido por black-out
 
Uma vitória nada Gentile
 
E a seguir veio uma vitória tangencial sobre a Argentina, conseguida com uma exibição deplorável, onde o jogo faltoso se sobrepôs ao futebol criativo dos sul-americanos. Claudio Gentile, sozinho, provocou 23 faltas, só sobre Diego Armando Maradona. A Argentina ficou presa na teia defensiva italiana e caiu vencida... 
 
Os jornais exigiam mudanças e pediam a cabeça de Rossi, o principal protegido do contestado Bearzot, mas o treinador não se demoveu das suas intenções e colocou Rossi como titular contra o Brasil e o resto é história...
 
Um hattrick para a história
 
O Brasil, então a melhor equipa do mundo, recheada de valores como Sócrates, Falcão e Zico, bem tentou, mas Paolo Rossi estava inspirado e marcou os três golos com que os azuis bateram os canarinhos por 3x2, numa tarde histórica no velhinho Estádio de Sarrià em Barcelona, casa do Espanyol, palco dos três jogos do grupo da morte com Itália, Brasil e Argentina. 
 
Rossi foge a Júnior e Falcão, na vitória por 3x2 da Itália sobre o Brasil, o jogo da vida de Paolo Rossi.
Um hattrick contra o grande favorito. Tudo era esquecido, as ruas de Itália explodiam de alegria e Rossi passava a herói nacional. Dias depois, na meia final, novamente contra a Polónia dois golos na vitória por 2x0, abriram o caminho da quarta final da Squadra Azzurra.
 
Seguiu-se a final contra os alemães ocidentais em Madrid onde apontou mais um golo na vitória por 3x1, mas a vitória só chegou na segunda parte, e coube a Rossi abrir o marcador aos 12 minutos do segundo tempo, dando a melhor sequência ao cruzamento de Cabrini. Tardelli e mais tarde Altobelli fizeram mais dois golos, a RFA ainda reduziu por Breiner, estava encontrado o novo campeão do mundo. Os italianos conquistavam o seu tricampeonato, 44 anos depois do último título. A Itália estava em festa dos Alpes à «ponta da bota», a Squadra Azzurra igualava o escrete no número de mundiais conquistados.
 
De vilão a herói: o depois do Espanha 82
 
Rossi não esqueceu quem lhe deu a mão, e mais tarde, quando foi agraciado com os prémios e louvado pelos seus feitos, declarou: 
 
«Bearzot demonstrou confiança em mim durante um período particularmente difícil da minha vida, algo pelo qual lhe serei sempre grato. Ele ajudou-me a encontrar o caminho dos golos depois de dois anos fora do futebol, ajudou-me a gostar de jogar novamente à bola e a encontrar novos objetivos e a recuperar a autoconfiança.»
 
"Bearzot demonstrou confiança em mim durante um período particularmente difícil da minha vida, algo pelo qual serei sempre grato. Ele me ajudou a encontrar o caminho do gol depois de dois anos fora do futebol, a gostar de jogar novamente e a achar meu foco e minha autoconfiança."
 
Rossi celebra na vitória italiana sobre a RFA na final do Espanha 82.
Melhor marcador da prova, venceu a Bola de Ouro da FIFA com seis golos, ganhando ainda o Ballon D'Or para melhor jogador europeu do ano. Nascia um novo herói! A Itália idolatrava-o! Em apenas seis dias, Rossi passara de um jogador - homem - odiado por muitos, inclusive alvo da falta de companheirismo dos colegas, a herói nacional, que se transformava no novo ícone do futebol transalpino da segunda metade do século XX.
 
Nos jogos que se sucederam ao mundial, entrou numa estranha seca que durou sete jogos. A Itália, falharia vergonhosamente a qualificação para o Euro 84, fazendo apenas cinco pontos num grupo de qualificação com quatro equipas. Dois anos depois, a Itália voltou a não estar à altura dos pergaminhos e seria eliminada prematuramente do mundial do México. Rossi, de novo convocado por Bearzot, passou ao lado da prova.
 
Depois do mundial de 1982 voltara para a Juventus, onde nunca conseguiu resultados como os atingidos no mítico verão espanhol de 1982.  Seguiu-se o AC Milan em 1985 e ainda o Hellas Verona, onde abandonou a carreira, atingindo 48 internacionalizações e marcando 20 golos com a «maglia azzurra». 
 
De mal amado passou a «Il Bambino d'Oro» [O Menino d'Ouro], lembrado sempre com carinho em Itália pelos três golos naquela tarde no Estádio do Espanyol de Barcelona... Precisamente por esse jogo, no Brasil, Rossi também nunca foi esquecido e ainda hoje é lembrado como o «Carrasco de Sarrià»

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