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Éric Cantona: «Le Roi»

2012/05/22 13:10
Texto por João Pedro Silveira
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«Flamboyant»(1), «Flanêur»(2), talvez não haja língua melhor que a francesa para descrever a presença de Éric Cantona nos campos de futebol. Os adjetivos falam por si, na liberdade criativa, no brilhantismo espontâneo.

Cantona era excessivo, inconstante, tinha a centelha que abençoa os génios, entrava em campo com a concentração com quem iria passar um dia na praia, tinha a leveza de um bailarino e a rudeza de um estivador do porto de Marselha, mas uma vez com a bola nos pés, era imbatível, ganhava jogos sozinho, não se escondia e assumia sempre a responsabilidade de desequilibrar as partidas em proveito da sua equipa.

«Le Roi, c'est moi» [O Rei, sou eu] assim rezava uma campanha publicitária de uma famosa empresa norte-americana que tinha Éric Cantona como figura principal, no auge da sua fama em 1996.
O seu temperamento, irascível, deixou marcas no campo, nos adversários, nos equipamentos e até em alguns espetadores. L'Enfant Terrible, o Bad Boy marselhês, não fazia prisioneiros, como se convencionou dizer. Com ele não havia meio-termo e nunca foi de levar desaforos para casa. A sua carreira fala melhor por ele do que qualquer biografia...
 
«Mauvais esprits»: empréstimos e fim da carreira...
 
Ao lado dos seus inúmeros feitos desportivos, há um rol de inglórias suspensões, castigos, lesões e problemas profissionais, que impediram Cantona de ser efetivamente aquilo que ele era, um dos melhores jogadores de futebol de todos os tempos. Esse falhanço foi fruto dos seus «Mauvais esprits», ou que os franceses chamam de «espíritos malignos», esse mau génio de onde lhe advinha a insubmissão e a indisciplina, tudo o que impediu de brilhar em todo o seu esplendor, de conquistar uma competição europeia ou jogar um Campeonato do Mundo.
 
Os primeiros sinais dos seus lendários «maus fígados» surgiriam já em Marselha, depois de ter sido transferido do Auxerre, quando após ter sido substituído num amigável com o Torpedo de Moscovo, rasgou e tirou os calções e jogou-os no chão em direção do banco. A direção do Olympique castigou-o com alguns dias sem poder treinar e jogar.
 
Na mesma altura insultava o selecionador nacional durante um programa de televisão e era castigado pela Federação e impedido de vestir a camisola bleu, que só voltaria a usar quando Michel Platini se tornou treinador dos gauleses.
 
Pouco depois seria emprestado ao Bordéus, onde ficou pouco tempo, sendo emprestado entretanto ao Montpellier, ao serviço do qual teria uma época de sucesso que culminou com a conquista da Taça de França. No ano seguinte regressou ao Olympique de Marseille, mas após uma arreliadora lesão que o manteve afastado dos relvados foi emprestado ao Nimes. 
 
Sheffield, Leeds e Manchester
 
Mas nada é definitivo na vida de Cantona, e algum tempo depois, uma vez terminado o castigo, resolve voltar ao futebol, atravessando o Canal da Mancha para tentar a sorte na vizinha Inglaterra.
 
A derrota da França com a Bulgária no Parc des Princes no último jogo da qualificação para o mundial dos Estados Unidos 1994, terá sido a derrota mais penosa da carreira de Cantona.
A carreira em terras de «Sua Majestade» começou no Sheffield Wednesday, onde só ficou uma semana, insatisfeito por ser posto à prova. Mudou-se para Leeds, onde com a camisola do United debutou na pátria do futebol. O ano no Leeds United foi ambivalente, se por um lado conquistou o título e chamou a atenção da imprensa com as suas exibições, sendo convocado para tricoleur, por outro lado, a sua inconstância custou-lhe a titularidade na equipa e viu assim, ser-lhe aberta a porta da saída...
 
Alex Ferguson, o treinador do Manchester United, aproveitou e foi buscar o francês aos campeões, ciente que estava que Cantona seria uma das pedras angulares do Manchester United campeão que estava a construir. O mago escocês não se enganou, e o avançado francês, juntamente com Schmeichel , Giggs e companhia, ajudaria a escrever o ressurgimento dos red devils como potência número um do futebol inglês.
 
Ainda antes de passar para Manchester foi convocado por Platini e partiu para a Suécia para jogar o Euro 1992. Apesar dos maus resultados e da França ficar pela primeira fase, Cantona foi eleito para o onze da competição.
 
Rei no «Reino» de Ferguson
 
Carisma: Inconfundível no brilhantismo e na arrogância como festejava os golos. Cantona não poupava ninguém, muito menos os adversários.
Com a camisola dos red devils, Cantona iniciou o período áureo da sua carreira, conquistando campeonato sobre campeonato, tornando-se o mestre da orquestra de Ferguson.
Depois de ter sido campeão no Leeds em 1992, ajudou o Man. United na conquista do primeiro campeonato desde 1968. Campeão em 1993, 1994, 1996 e 1997, Cantona era sinónimo de sucesso em terras inglesas. 
 
Pela primeira vez um francês brilhava do outro lado do Canal, e os nacionalistas adeptos do Manchester não tinham pejo em entoar cânticos para a sua estrela gaulesa. Em Old Trafford as bancadas do «Teatro dos Sonhos», ou nos outros campos de Inglaterra, os red devils demonstravam o seu amor começando a cantar: «Allons enfants de la Patrie, Le jour de gloire est arrivé !», os primeiros versos da «Marselhesa»... E que maior prova de amor poderia Cantona encontrar dos adeptos, que estes entoarem o hino do velho rival da Inglaterra em sua honra?
 
Os sucessos continuavam, e Cantona era premiado com o prémio de melhor jogador da FA Premier League em 1994, para coroar a época onde o United tinha conquistado o treble: FA Premier League, FA CUP e Charity Shield.
 
Um pontapé no destino
 
Allons enfants de la Patrie
Le jour de gloire est arrivé !
 
De permeio, o United deixou escapar o título de 1995 para o Blackburn Rovers, e Cantona não ficou de todo isento de culpas, pois a 25 de janeiro, num jogo em Londres, contra o Crystal Palace, «Le Roi» foi expulso depois de pontapear um adversário. Mas o pior estava para vir, pois quando caminhava para os balneários, reagiu mal as «bocas» de um adepto e pontapeou-o com um pontapé de Kung fu «à la Cantona», a que se seguiram alguns socos.
 
«Kung fu à la Cantona», provavelmente o pontapé mais famoso da sua carreira...
Numa conferência de imprensa, algum tempo depois, terá feito a mais enigmática (e famosa) declaração da carreira. Perante uma sala cheia de jornalistas, lenta e convictamente afirmou:
 
«Quando as gaivotas seguem as traineiras, é porque acham que vão atirar sardinhas ao mar. Muito obrigado a todos!» 
 
Levantando-se de seguida, e abandonando a sala onde deixou uma plateia atónita e de boca aberta. Pouco depois seria detido e acusado de agressão, com uma pena de duas semanas de prisão. Acabaria por ver a sentença ser alterada para 120 horas de trabalho comunitário.
 
Desportivamente foi suspenso pelo Manchester United até ao final da época, mas pouco depois a FA acabaria por suspende-lo por oito meses. Esteve perto de abandonar o futebol, ou de sair de Inglaterra, mas Ferguson convenceu-o a esperar pela época seguinte, para voltar a vestir a camisola do United.
 
Como uma estrela rock
 
Uma vez terminada a carreira, Cantona pôde dar largas ao seu hedonismo, preconizando na vida real o seu papel de dandy e bad boy, passando com a mesma faciliade de uma passadeira vermelha, para um court de futebol de praia...
Regressado, voltou aos títulos, mas não conseguiu convencer Aimé Jacquet, que o deixou fora dos convocados da França para o Euro 96, e mais tarde para o França 98. Insatisfeito, abandonou prematuramente o United e o futebol em 1998, dedicando-se à carreira de actor - chegando a participar em «Elizabeth», ao lado da consagrada Cate Blanchet- que ia alternando com a sua nova paixão pelo futebol de praia, onde além de jogador, foi treinador da seleção francesa.
 
A sua reputação de Bad Boy foi alimentada com presenças mediáticas em torneios pelas praias da Europa e da América, em festivais de cinema ou em entrevistas polémicas na televisão francesa ou inglesa. Nunca se mostrou arrependido do famoso pontapé, ao ponto de em 2011, numa entrevista em França, considerar que fora um momento feliz. Amado pelos seus, idolatrado pelos adeptos do Manchester, foi votado pelos fãs como o jogador do século XX do clube mancuniano, à frente de lendas como Bobby Charlton e George Best, foi eleito também para a lista dos cem melhores jogadores do futebol inglês e teve entrada direta, logo na estreia, para o Hall of Fame do futebol inglês.
 
O «Rei» ainda hoje é aclamado na monárquica Inglaterra, enquanto a sua natal e republicana França nunca fez a justiça ao seu génio. Magoado, Cantona devolve na mesma moeda a indiferença dos seus compatritotas, denegrindo sempre que pode o seu país em comparação com a Inglaterra, alimentando sempre um pouco mais, a relação de «amor-ódio» que mantém com o hexágono. 
 
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(1) Flamboyant - Extravagante; flamejante; que arde com fogo próprio e luz brilhante; que usa ornamentos em forma de chama ou excessivamente brilhantes.
(2) Flâneur -  Aquele que passeia sem destino, por mera distração; vadio, aquele que vagueia sem rumo; que desperdiça o tempo ociosa e preguiçosamente.
Os problemas seguiram-no, e pouco depois seria afastado pela Federação por ter atirado uma bola contra um árbitro. Mas o castigo seria alargado para dois meses após ter chamado «idiotas» aos dirigentes federativos. Desiludido com o rumo das coisas, resolve dar por terminada a carreira e pendurar as botas...«Flamboyant»*, «Flanêur»**, talvez não haja língua melhor que a francesa para descrever a presença de Éric Cantona nos campos de futebol. Cantona era excessivo, era inconstante, tinha a centelha que abençoa os génios, entrava em campo com a concentração com que iria para a praia, tinha a leveza de um bailarino e a rudeza de um estivador do porto de Marselha.
O seu temperamento, irascível, deixou marcas no campo, nos adversários, nos equipamentos e até em alguns espetadores. L'Enfant Terrible, o Bad Boy marselhês, não fazia prisioneiros, como se convencionou dizer. Com ele não havia meio-termo e nunca foi de levar desaforos para casa. 
«Mauvais esprits»: empréstimos e fim da carreira...
Ao lado dos seus inúmeros feitos desportivos, há um rol de inglórias suspensões, castigos, lesões e problemas profissionais, que impediram Cantona de ser efetivamente aquilo que ele era, um dos melhores jogadores de futebol de todos os tempos. Esse falhanço foi fruto dos seus «Mauvais esprits», o que os franceses chamam de «espíritos malignos», daí advinha a insubmissão e a indisciplina, que impediram Cantona de atingir todo o seu esplendor.
Os primeiros sinais dos seus lendários maus-fígados surgiriam já em Marselha, depois de ter sido transferido do Auxerre, quando após ter sido substituído num amigável com o Torpedo de Moscovo, rasgou e tirou os calções e jogou-os no chão em direção do banco. A direção do Olympique castigou-o com alguns dias sem poder treinar e jogar.
Na mesma altura insultava o selecionador nacional durante um programa de televisão e era castigado pela Federação e impedido de vestir a camisola bleu, que só voltaria a usar quando Michel Platini se tornou treinador dos gauleses.

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Kanté iguala feito de Cantona
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