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Massimo Bonini: o craque de São Marino

Texto por João Pedro Silveira
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Quando se fala de Massimo Bonini recorda-se sempre a célebre história entre Michel Platini e Gianni Agnelli, dono e acionista da Vecchia Signora, durante um intervalo de um jogo da Juventus.

Quando L'Avvocato (1) entrou no balneário e encontrou Michel Platini sentado a calçar uma chuteira, enquanto segurava um cigarro na coma, não resistiu e desabafou: Mas como é possível Michel? Um atleta como tu a fumar durante o intervalo? Platini sorriu, deu uma palmada nas costas de Bonini que estava a seu lado, este virou-se e depois de dar uma longa passa no cigarro respondeu: "Avvocato, o importante é que Bonini não fume, ele é que tem de correr."

Assim nascia a lenda do "Pulmão de Platini", o nome por que ficou para sempre conhecido Massimo Bonini. 

Uma escolha natural

Em 2004 a UEFA completou o seu 50.º aniversário, para celebra-lo condignamente pediu a cada uma das associações nacionais que escolhesse o seu melhor jogador dos primeiros cinquenta anos da UEFA.

A lista de craques do Jubileu da UEFA é impressionante: Di Stéfano, George Best, Eusébio, Bobby Moore, Denis Law, Dino Zoff, Just Fontaine, Lev Yashin, Hristo Stoichkov, Gheorghe Hagi...

Ao lado de grandes nomes e outros menos conhecidos que representam a história das suas federações, está o nome de Massimo Bonini, o são-marinense que um dia rejeitou vestir a maglia azzurra (2) pois guardava o sonho de vestir a camisola da seleção do país que o vira nascer: São Marino. 

Um rochedo com uma história milenar

São Marino é um enclave cercado por todos os lados por Itália. A mais velha república do Mundo é o terceiro país mais pequeno da Europa (3) e o mais velho estado da Europa, que segundo a tradição se tornou independente do Império Romano no ano de 301 e.c. quando Marinus, um pedreiro proveniente da Dalmácia (4), acossado pelas autoridades imperiais pela sua fé cristã, resolveu se refugiar num rochedo no topo do monte Titano (o maior das sete colinas de São Marino) e fundar uma pequena comunidade cristã. 

Marinus, mais tarde São Marino, fundou uma capela e mais tarde um mosteiro e essa comunidade sobreviveu e manteve-se unida, sobrevivendo a séculos de convulsões e guerras até chegar aos nossos dias.

Apesar de uma história milenar, São Marino não tinha representação futebolista até ao fim do século XX. A federação, fundada em 1931, só se filiou na FIFA e na UEFA em 1988. Participou pela primeira vez numa competição oficial durante a qualificação para o Euro 92 e desde então acumula uma longa lista de derrotas, terminando invariavelmente no último lugar da classificação, tentativa após tentativa.

O sonho de jogar pela seleção

Vestir a camisola da Serenissima fora o sonho de gerações de jogadores são-marinenses. Bonini cresceu com essa ambição, a ambição natural de um dia defender as cores do seu país. 

Massimo nascera em São Marino e aí crescera, aprendera a jogar primeiro nas ruas, depois na escola e por fim nas camadas jovens do Jovenes, um dos históricos clubes do país. Começou então um percurso por pequenos clubes italianos refinando a sua arte de médio defensivo até chegar à Cesena, chegando inclusive a jogar na seleção de esperanças de Itália.

Durante duas épocas vestiu a camisola bianconera dos cavallucci marini (5) chamando a atenção dos dirigentes da Juventus que correram a contrata-lo.

Chegado ao gigante de Turim, mesmo rodeado de tantos nomes consagrados deu nas vistas. Quem o olhava ali no meio do campo, 1,78 cm, franzino, com a cabeleira loira, não podia imaginar a sua força e a sua capacidade de recuperação.

Bonini era um caso de superação, não dava uma bola por perdida rapidamente se tornando numa peça fundamental da equipa bianconera. Daí a tornar-se o pulmão de Platini foi um ápice. 

Durante sete épocas venceu três Scudettos e uma Taça de Itália. Esteve presente na vitória sobre o FC Porto na final da Taça das Taças em Basileia e no ano seguinte estava em Bruxelas na trágica final do Heysel, naquela que terá sido a vitória mais dura da sua carreira e do clube de Turim.

Bologna e a seleção

Ainda a nível internacional conquistou uma Supertaça europeia e a Taça Intercontinental, sendo um dos jogadores mais laureados internacionalmente da história do clube, ao serviço do qual marcou cinco golos em 192 jogos.

Em 1988 mudou-se para Bolonha, onde representou o clube local durante quatro épocas. Tornou-se, tal como fora no Dell'Alpi, um dos preferidos das bancadas do Renato Dall'Ara. Quando pendurou as botas, em 1992, tinha um lugar guardado no coração rossoblu, pelos 112 jogos ao serviço do emblema da Emília-Romanha, onde apontou cinco golos.

Nas últimas épocas da carreira pode finalmente vestir a camisola de São Marino. Jogando até 1995 pela sua seleção, jogando em 19 ocasiões e realizando um velho sonho de infância. 

Depois do ponto final na carreira ainda orientou a seleção nacional entre 1996-97, passando depois duas épocas pelo comando da equipa Primavera do Cesena.

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(1) Nome por que era conhecido Gianni Agnelli, o patrão e dono do Grupo FIAT e da Juventus
(2) Italiano para "camisola azul", nome por que é conhecida a camisola que a seleção italiana (Squadra Azzurra) veste regularmente.
(3) Depois do Estado do Vaticano e do Principado do Mónaco, a República de São Marino é o terceiro país mais pequeno do continente europeu.
(4) Na atual Croácia.
(5) No emblema da AC Cesena destaca-se sobre um fundo preto e branco um imponente Cavalo Marinho. 
 

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