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história
Tragédias

A morte de Fehér

2015/01/26 11:02
Texto por Luís Paulo Rodrigues
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A televisão mostrou, primeiro, um estorvo do húngaro ao lançamento de um adversário, depois, um cartão amarelo do árbitro, a seguir um sorriso, aquele inesquecível sorriso completado com uma mão a soltar o cabelo loiro, humedecido por suor e chuva fria. Tudo normal, até ao estranho amparo do tronco com as mãos nos joelhos... Cansaço? Talvez.

Mas não, o estrondo que se seguiu ditou a queda fatal, com o cabelo loiro a ser atirado violentamente ao solo. Os jogadores acudiram, Sokota deslizou-o para uma posição lateralizada, enquanto outros chamavam desesperadamente os intervenientes médicos.

O estádio assobia, pensando tratar-se de anti-jogo do adversário, pela curta vantagem, mas logo sustém a respiração ao ver Tiago com as mãos na cabeça, Miguel ajoelhado e de rosto tapado, Simão impotente. Miklos Fehér, Miklos Fehér!! Cantou-se a uma só voz, surgiu um laivo de esperança, Argel pediu apoio, as vozes multiplicaram-se... Mas tudo foi insuficiente. Inacreditavelmente para os seguidores de um futebol muito raro nestas coisas, Fehér não voltaria a acordar...

Fehér não era um jogador de top mundial, não era um jogador de top do campeonato português, nem sequer era um titular no Benfica, como não tinha sido no FC Porto. Era, quando muito, uma promessa do futebol húngaro e do campeonato nacional. Mas a vertente futebolística não é chamada ao caso. Fehér tornou-se um símbolo, não apenas do Benfica ou da Hungria, mas de Portugal e do futebol.

25 de janeiro, noite em Guimarães, frio e chuva brindavam um intenso, mas mal jogado, Vitória SC x Benfica. Fehér estava a jogar pouco, vinha de apenas uma participação nos anteriores quatro desafios para o campeonato, só que Nuno Gomes não pôde ir a jogo e, face ao nulo, o avançado foi a primeira opção de Camacho, entrando ao minuto 58 para o lugar de João Pereira.

Dez anos depois do trágico momento, Fernando Aguiar recordava: «Todos os anos, por esta altura, passa-me sempre a mesma coisa pela cabeça: marcar o golo e logo a seguir o Miklos cair para o lado. Logo na hora tive aquele feeling de que algo estava mesmo muito mal».

«Nunca estamos à espera de uma coisa destas. Era um jogo numa noite fria e de chuva e acontece algo que ninguém estava à espera e de que eu nunca tinha ouvido falar, sequer. Foi trágico, pois estávamos a fazer aquilo que fazemos sempre, que é jogar futebol», considerou.


O desespero foi visível, no estádio e na televisão, mas prolongou-se pelas horas seguintes, numa apreensão lógica de quem sentia o palpitar de uma catástrofe a chegar. Angústia, medo, ansiedade, pânico e um balneário rasgado por gritantes ruídos de... silêncio.

«Quando chegámos ao balneário imperou o silêncio, no máximo havia os que abraçavam outros. Ali só queríamos tomar banho rapidamente para irmos para o hospital, embora soubéssemos que a situação era muito negra e muito grave» lembrava Aguiar.

Tragédia que fortaleceu união

«Confesso que, a partir daí, fiquei um bocado abalado, com medo que alguma coisa me acontecesse, estava sempre com a mão na pulsação. Ainda hoje, quando há um treino mais forçado, acabo a pensar nisso e a controlar a respiração para me certificar que está tudo bem comigo», confessou.

Fehér, o reservado, estava a aparecer

Somava 24 anos e meio (faria 25 em julho) e tinha chegado a Portugal muito cedo, para o FC Porto. Chegou a comemorar o Penta, só que esteve noutras paragens (Salgueiros e SC Braga) para ter mais oportunidades e acabou por sair dos dragões em litígio.

Seguiu-se o ingresso no Benfica e uma época e meia de águia ao peito. Na primeira, tinha feito quatro golos em 18 jogos, na segunda já levava mais um jogo disputado e o mesmo número de golos, o último dos quais contra os belgas do La Louvière (1x0), no Estádio do Bessa, em jogo da Taça UEFA.

O espaço ia sendo trilhado a pulso, por causa da forte concorrência, mas Miklos Fehér conseguiria a afirmação, segundo a convicção de Fernando Aguiar: «O Fehér tinha uma concorrência bastante forte. O Sokota estava muito bem naquela altura, muito forte e agressivo, a quem não era fácil tirar o lugar. O Nuno Gomes era um excelente avançado. Contudo, o Fehér era novo e estava a aparecer, não tenho dúvidas de que seria um avançado que se iria afirmar no futebol português».

E, para além do jogador, que pessoa se perdeu? «Não era uma pessoa de muita conversa. Era muito reservado e gostava de estar no seu cantinho. Apesar de gostar de entrar nas brincadeiras, não era uma pessoa extrovertida, mas toda a gente gostava dele».

Durante os dias seguintes a Luz foi o centro da actualidade desportiva e não só. Benfiquistas, adversários, rivais, todos prestaram homenagem na Luz, inclusive as comitivas de dragões e leões, que se fizeram representar ao mais alto nível. Fehér serviu para unir "velhos inimigos" ao ponto de no dia 31 de janeiro, momentos antes do clássico entre Sporting e FC Porto, cerca de 40 mil estiveram em silêncio e depois aplaudiram o benfiquista, perante o olhar atento de Luís Filipe Vieira na tribuna de Alvalade

No dia seguinte, o Benfica recebeu a Académica e a Luz viveu um dos momentos mais sentidos da sua história, com milhares em profundo silêncio no adeus ao avançado húngaro. 

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Jogador
Equipa
Estádio
Estádio D. Afonso Henriques
Lotação30000
Medidas105 x 68 m
Inauguração1965