história
À volta do jogo

O rei apaixonado por futebol

Texto por João Pedro Silveira
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Desde um boicote à competição, passando por um estádio que não estava pronto a tempo para a competição, continuando pelos cruzeiros transatlânticos em que uma comitiva dava boleia a outra comitiva, viajando juntamente com árbitros e o próprio presidente da FIFA.
 
Mas nenhuma história será tão interessante, como a de Carol II, o Rei romeno, que se tornou numa das figuras da prova e da história da competição.
 
Primeiras medidas
 
O Rei Carol II da Roménia subiu ao trono 35 dias antes de começar a primeira edição do Campeonato do Mundo de Futebol. E uma das primeiras medidas que tomou já empossado como monarca, foi conseguir que a seleção romena participasse no mundial de futebol, aproveitando que a maioria dos países europeus tinha declinado os convites da FIFA e da Federação Uruguaia. 
 
Com 37 anos de idade, o jovem monarca era um apaixonado por futebol. Com pouco mais de um mês para se disputar o primeiro mundial da história, Carol II tentou o impossível: fazer alinhar a sua Roménia no grande torneio.
 
Sem experiência, a equipa romena só disputara o seu primeiro jogo internacional oito anos antes. O caminho da seleção para o topo era longo e penoso, e nos primeiros anos de história, os resultados não eram os mais famosos.
 
Inscrição e convocatória
 
Após grandes esforços diplomáticos, Carol II conseguiu para a Roménia uma vaga no mundial, três dias antes do fim do prazo de inscrições. De seguida, a todos os jogadores de futebol que estavam suspensos foi garantida uma amnistia. E com um leque de selecionáveis mais alargado, Carol II tomou em mãos a missão de selecionar e convocar os jogadores, em vez do selecionador Costel Radulescu.
 
O primeiro problema surgiu dias depois quando uma grande empresa petrolífera inglesa, onde trabalhavam alguns dos melhores jogadores da seleção, recusou-se a dar três meses de ausência paga aos seus trabalhadores, ameaçando que quem mesmo assim resolvesse partir para o Uruguai, não teria trabalho quando regressasse.
 
Ultrajado, o Rei Carol II telefonou pessoalmente ao dono da petrolífera, avisando que se a empresa não libertasse os jogadores, a empresa seria fechada. Obviamente, os patrões deixaram os jogadores partir...
 
A viagem
 
Assim, a 21 de Junho de 1930, os romanos entraram no «Conte Verde» em Génova, na Itália, de onde partiram rumo a Villefranche-sur-Mer, onde receberam a bordo a companhia da seleção francesa, de alguns árbitros, do Presidente da FIFA, Jules Rimet, que trazia o famoso troféu na sua mala.
 
Seguiu-se nova paragem em Barcelona para dar «boleia» à seleção nacional da Bélgica. Seguiram-se 16 dias em que o transatlântico navegou a todo o vapor rumo ao Rio de Janeiro, onde seria a vez de embarcar a seleção brasileira, a última a fazer parte da maior "excursão naval futebolística" de todos os tempos. E só não foram mais seleções, porque a Jugoslávia preferiu viajar sozinha, embarcando em Marselha no «Florida».
 
Durante a longa travessia, as equipas treinavam regularmente nos dez decks existentes do navio. Radulescu, todos os dias exercitava os seus 19 jogadores, mas tinha de manter especial atenção para o 20.º membro da equipa, pois Sua Majestade fazia questão de bater umas bolas com os jogadores todos os dias.
 
Sonho esfumou-se
 
A Roménia fez parte do grupo 3, juntamente com peruanos e uruguaios. A estreia, saldou-se numa vitória fácil sobre o Peru por 3x1. Vitória conseguida com um golo de Adalbert Desu, logo aos 50 segundos, um dos mais rápidos golos de sempre em fases finais.
 
Na segunda partida, a Roménia não resistiu à força de José Andrade, José Nasazi  e companhia, perdendo por uns claros 0x4. Perder por tais números, com os bicampeões olímpicos, que haveriam por conquistar o troféu após bater a Argentina na final (4x2) não envergonhou uma equipa sem historial de bons resultados. 
 
Carol II regressou com a equipa a casa, apaixonado pelo desporto-rei e ajudou a cimentar na sua terra natal uma paixão pelo futebol, que muitos anos mais tarde, Gheorghe Hagi considerou indescritível. 
 
Em 1940, durante a II Guerra Mundial, Carol II abdicou do trono, partindo para o exílio em Portugal, onde faleceria 13 anos depois. 
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