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Visão de jogo
Pedro Silva
2017/11/09 14:03
E0
Espaço de análise da actualidade desportiva, onde o comportamento, a emoção e a razão têm lugar privilegiado. Uma visão diferente sobre o jogo, para que o jogo seja diferente.

No final da semana passada decorreu uma iniciativa à qual tive o prazer de assistir e que merece ser partilhada, para ser refletida. O S.C. Braga, em particular o Departamento de Formação em conjunto com o Conselho Cultural e Social, deu início a um conjunto de Conversas na Desportiva, um conjunto de sessões sobre temas de vital importância para o desenvolvimento dos seus atletas, técnicos, dirigentes, pais de atletas, etc., que contam com a presença de especialistas no tema escolhido e alguns atletas que falam da sua experiência.

O tema desta sessão foi Psicologia no Desporto e entre os convidados estavam dois psicólogos, Jorge Sequeira e Jorge Silvério, dois ex-atletas do clube, Nuno Gomes e Custódio, e uma atleta da equipa de futebol feminino, Dolores Silva. Um bom painel para conjugar diferentes pontos de vista sobre o tema. A sessão decorreu na Cidade Desportiva do clube, um local privilegiado e ao nível do melhor que há por essa Europa fora. Chapeau!

Em afirmação no mundo do desporto, não só do futebol, a Psicologia é sempre um tema sensível, pouco consensual e, por vezes até, fraturante. Ou melhor, não é a Psicologia em si, mas sim a presença de psicólogos, em particular no futebol, que torna o tema tão discutível, porque não podemos ignorar ou negar que os comportamentos, as emoções, a confiança, a motivação, a ansiedade, a agressividade, existem no futebol. Por isso, a expectativa era alta e devo dizer que foi superada, com grande interesse demonstrado pelos que assistiram e pelas questões colocadas. Deveu-se isto a uma principal razão: conseguiu-se uma osmose natural, perfeitamente fluída, entre a teoria e a prática, entre o conhecimento e a experiência, entre o passado e o presente. Sempre com uma linguagem clara na abordagem aos temas, da parte de todos. Como disse o Doutor Jorge Sequeira, “É preciso falar a linguagem do futebol”.

Ora, o que sobressaiu então desta sessão de Psicologia… na Desportiva? Muitos temas foram tocados ao de leve, uma vez que seria fastidioso da parte de atletas ou psicólogos ir a fundo em qualquer assunto, mas outros foram mais reforçados e permitiram realçar ideias interessantes. Porém, mais do que particularizar o que foi abordado, importa retirar conclusões.

Apresento as minhas, em três tópicos:

1. Uma mudança de paradigma – Nuno Gomes, que como sabemos jogou em grandes equipas em Portugal e no estrangeiro, foi bem claro: “Quando comecei no Boavista, não havia psicólogos, mas também não havia nutricionistas…” Ou seja, o paradigma mudou. Como diria um amigo meu, a era do faz tudo acabou! Hoje, trabalhar no futebol de alto rendimento significa ter um conjunto de especialistas em várias matérias, integrados numa ideia de clube, de equipa, de jogador, em função de resultados. Já o abordei no artigo Equipas Técnicas: Ciência e Arte. Neste sentido, Dolores Silva, jogadora da equipa feminina do S.C. Braga e da Seleção Nacional que jogou durante vários anos fora do país, disse que “o primeiro contacto foi na Alemanha, numa fase menos boa da equipa, com um Psicólogo que colaborava com o Borussia de Dortmund.” Quando questionada sobre a realidade atual, nomeadamente da Federação, referiu: “Na Seleção nunca tivemos, passa tudo pelos treinadores.

Permitem-nos estas referências constatar que, apesar de o paradigma estar a mudar, há ainda muito trabalho a fazer para conseguir incluir psicólogos desportivos nas equipas técnicas e estruturas federativas. É um processo lento e gradual, mas necessário e inevitável.

2. Intervenção integrada – Uma comunicação muito interessante foi também a do ex-médio Custódio, sobre a integração da Psicologia no processo: “A Psicologia existiu sempre, não estava era organizada, era tudo mais à bruta.” Significa isto, como já devemos saber, que não é possível dissociar o que é mental do que é técnico, ou o que é tático do que é físico. A psicologia, ou seja, o estudo dos comportamentos humanos, está lá sempre. Assim como, todo e qualquer exercício de treino ou momento de jogo, tem sempre mais do que uma variável em interação. Como refere o Prof. Manuel Sérgio: “Num treino de dominância física, o jogador de futebol (o atleta) é um ser de sentimentos. E se ele se encontra incompatibilizado com o treinador?... E, se nesse dia o pai está gravemente doente?

Ou seja, a verdadeira Psicologia no Desporto é a integrada e o consequente papel dos Psicólogos no Desporto é o de especialistas… integrados. Porque “quem só sabe de Psicologia, nem de Psicologia sabe”, e porque físico e psíquico não são separáveis como duas metades de uma laranja, está na capacidade de integrar ciências e conhecimentos a possibilidade de afirmação de como “fazer” Psicologia no Desporto: em equipas multidisciplinares. Como refere António Damásio, sobre as equipas em que desenvolve as suas investigações nas Neurociências: “Somos várias vezes multidisciplinares e esse é o método a diferentes níveis.”

3. A melhoria em vez do problema – Com uma maior diversidade de afirmações, entre “senti necessidade de recorrer ao Psicólogo Desportivo, sou muito ansiosa”, da Dolores Silva, ou “nunca senti necessidade de expor nenhum problema” do Nuno Gomes, encontramos as naturais diferenças que os atletas manifestam, em diversos momentos, de maior ansiedade e incerteza, de confiança e otimismo, que não faz deles melhores nem piores, apenas desportistas diferentes e conscientes do que realmente são. Aqui, temos um grande desafio desta área de estudo: a capacidade de se afirmar mais pelo que pode fazer na melhoria de competências associadas ao rendimento e ao bem-estar, desportivo e pessoal, do que simplesmente pela resolução de problemas. Como referiu o Doutor Jorge Silvério, “Se quero melhorar, não tem de haver um problema.”

Assim como, não se desenvolve o físico, a técnica e a tática apenas quando há problemas, mas sim de forma antecipada, num sentido de desenvolvimento e melhoria de competências, deve também a componente psicológica ser vista na mesma perspetiva: um Psicólogo Desportivo, integrado, deve ser um facilitador do desenvolvimento das competências daqueles com quem trabalha, não apenas um Bombeiro para intervir em situações de emergência ou em momentos críticos.

Muitas outras ideias, valiosas e interessantes, foram partilhadas na sessão e poderíamos aqui decompor mais ainda sobre todo este mundo dos comportamentos, das emoções, dos pensamentos, da concentração e da confiança, da criatividade e da ansiedade, da coesão e da motivação, tão presentes nas ações e nos discursos, dos treinadores e dos jogadores, evidentes no treino e no jogo. Muitas perguntas poderíamos colocar, bons e maus exemplos poderíamos partilhar, seria uma conversa sem fim tentado chegar a alguma conclusão.

Porém, se tentarmos chegar ao que é, de facto, essencial, colocando de lado o importante e o acessório, ao que chegamos? Isto é, se analisarmos o futebol, ou melhor, os homens e as mulheres que jogam futebol, na sua essência, encontramos o quê?



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